Sabe, tem certas frases que, só de ouvir, já me causam um arrepio na espinha. E não é de um jeito bom. No topo da minha lista pessoal de coisas que me tiram do sério está o aparentemente inofensivo pedido: “grava pra mim?”. Parece simples, né? Mas por trás dessas três palavrinhas se esconde um convite para abandonar o presente.
Deixa eu te contar uma história. Um dia desses, fui assistir a um show de dança, super empolgado para ver o espetáculo. Por uma daquelas coincidências da vida, uma conhecida minha era parente de uma das dançarinas. No meio do evento, ela se aproxima com um sorriso e uma câmera na mão: “Você é bom com filmagem, grava pra mim a apresentação dela?”.
Meu sorriso congelou. Naquele instante, eu deixei de ser o Gleydson, espectador, para me tornar o “tio da câmera”, um cinegrafista amador com a missão de registrar um momento que eu mesmo deixaria de viver.
Eu odeio esse tipo de pedido. E não é por má vontade, juro. É que eu defendo com unhas e dentes que a experiência de estar em um lugar – seja um show, uma peça de teatro ou um pôr do sol na praia – não pode ser contaminada por uma tela. Eu quero ver com meus próprios olhos, ouvir com meus ouvidos, sentir a energia do lugar com todos os meus sentidos. É visceral, é real.
Ver um evento incrível por trás da telinha de um celular é como tentar sentir o cheiro de um banquete olhando uma foto do prato. Simplesmente não funciona. Se for para ter essa experiência mediada, sou muito mais ficar em casa, esparramado no sofá, vendo tudo num telão de 55 polegadas com som 5.1 e, quem sabe, um bom drink na mão. A qualidade é infinitamente superior e o conforto, incomparável.
O mais irônico é que, hoje em dia, quando vou a um show, sou minoria. Ao meu redor, o que vejo é um mar de celulares erguidos, uma floresta de telas brilhantes. Parece até um episódio de Black Mirror, não acha? Aquela distopia onde a gente esqueceu como se vive sem um filtro tecnológico na frente dos olhos, mais preocupados em provar que estávamos lá do que em, de fato, estar lá.
A boa notícia é que, quando não consigo escapar, já aproveito que todo mundo está gravando. Depois é só dar uma busca nas redes sociais e pegar o conteúdo que eles, os cinegrafistas de plantão, fizeram o favor de registrar. 😉
Mas confesso que encontrei uma solução que equilibra os dois mundos, caso a obrigação de filmar seja inevitável: minha velha e boa Insta360. Isso sim é uma inovação que eu respeito. Eu fixo a câmera em algum lugar estratégico, aperto o “rec” e esqueço dela. Ela faz o trabalho sujo, gravando em 360 graus, capturando todos os ângulos possíveis. Depois, com calma, eu edito o material. Eu consigo registrar o momento para a posteridade sem sacrificar o meu presente. É como ter o poder do Doutor Estranho para manipular o tempo e o espaço, mas só para filmagens.
No fim das contas, a questão não é ser contra a tecnologia, mas a favor da experiência. É sobre escolher viver o momento em alta definição, com a tecnologia dos nossos próprios sentidos, em vez de reduzi-lo a pixels tremidos e áudio estourado.
E você? É do time que grava tudo ou do que se joga de cabeça no momento? Me conta aqui nos comentários!
Referências:
- The Psychology Behind Why We Film Live Events Instead of Watching Them (VICE)
- Why you should stop taking pictures on your phone and live in the moment (The Guardian)
- How Smartphones Affect Your Memory of Experiences (Psychology Today)
Imagem:
- Governors Ball NYC / YouTube.






