Fiquei sem fala. Literalmente travou o sistema aqui no bunker. Aconteceu quando soube da história de um garoto de apenas 16 anos, mergulhado numa depressão profunda, quase decidindo “dar rage quit” da vida por vontade própria. O motivo? Não foi um coração partido ou um problema na escola. Foi uma epifania terrível, alimentada por discursos de ativistas e governos: a certeza de que, no futuro, o Sol vai crescer, explodir e engolir a Terra.
Para ele, a lógica se tornou implacável e paralisante: se toda a nossa história, nossos ensinamentos, nossa tecnologia e tudo o que construímos vai inevitavelmente virar poeira cósmica, então nada importa. Tudo o que ele faz, aprende ou deixa para trás é, nas palavras dele, “sem sentido e desnecessário”.
Essa angústia de ver o fim do filme antes mesmo de viver o meio me bateu forte. A virada para 2026 trouxe esse gosto metálico na boca para muita gente. E não falo apenas das previsões apocalípticas sobre o clima — rios voadores, calor de fritar ovo no asfalto — ou das manchetes que parecem roteirizadas por uma IA deprimida. Falo dessa sensação de que o futuro longínquo, ou a ansiedade digital, anulou o presente.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diagnosticou cirurgicamente nosso tempo: estamos vivendo na “Sociedade do Cansaço”, nos afogando no “inferno do igual”. A angústia do garoto, e a nossa, não é só pelo que está acontecendo lá fora (ou no sol daqui a bilhões de anos), mas pelo que não está acontecendo aqui dentro, no mundo tátil. Estamos terceirizando nossa imaginação para o ChatGPT e nossas memórias para a nuvem. E isso me assusta. Me assusta a falta de materialidade das coisas.
Lembra do Cypher, em Matrix? Aquele traíra que preferia comer um bife suculento e falso na simulação do que encarar a gororoba real da nave Nabucodonosor? Pois é. Estamos vivendo o dilema do Cypher em escala global. O futuro está se desenhando como um lugar cheio de qualidades, mas sem seres humanos. Um feed infinito de vivências que pairam no ar, sem ninguém para vivê-las de fato.
Mas aqui vai a virada de chave, o “plot twist” que a gente precisa para não coringar de vez e para responder àquele garoto de 16 anos: a realidade ainda é o único lugar onde se pode comer uma refeição decente.
Essa frase não é minha, é de Jogador Nº 1, mas resume bem o que quero dizer. O antídoto para essa náusea niilista, para esse medo de ser irrelevante diante do cosmos ou de um algoritmo, é a concretude.
É sujar a mão de graxa, de terra ou de tinta. É o trabalho manual que te dá a dimensão do seu tamanho no mundo. É conversar com alguém olhando no olho, sem a mediação de uma tela de vidro, sentindo o desconforto e a maravilha da imprevisibilidade humana — algo que nenhuma IA consegue replicar, porque a IA opera na lógica, e o ser humano opera no caos e na paixão.
Zygmunt Bauman já avisava que, na modernidade líquida, nada foi feito para durar. As relações escorrem pelos dedos. Mas quando você desliga o Wi-Fi e foca no agora, no físico, no “aqui”, você cria uma ilha de solidez. O Sol vai explodir? Vai. Mas hoje o café está quente, o abraço é real e a música ainda toca.
Não estou dizendo para virarmos eremitas luditas. A tecnologia é uma ferramenta incrível. O ponto é não deixar que ela (ou o medo do futuro distante) seja a única lente pela qual enxergamos a vida.
A rebeldia hoje é ter a coragem de ser uma pessoa real num mundo de perfis. É aceitar que a vida offline é lenta, às vezes chata, e não tem filtro de beleza, mas é a única que possui peso.
Então, se a cabeça encheu e o diabo apareceu para fazer o turno da noite com pensamentos sobre o fim dos tempos, a solução não é scrollar o feed. A solução é voltar à materialidade. Abrace o tédio. Sinta o mundo. Como diria o grande Carl Sagan, somos feitos de poeira das estrelas. Isso não nos torna irrelevantes; nos torna o universo tomando consciência de si mesmo. E isso importa.
Que em 2026 a gente tenha menos relatórios de vida e mais vida de fato. Menos nuvem, e mais pé no chão.
Referências:
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Editora Vozes, 2015.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Jorge Zahar Editor, 2001.
CLINE, Ernest. Jogador Nº 1. Editora Leya, 2011.
WACHOWSKI, Lana & Lilly. Matrix (Filme). Warner Bros., 1999.
SAGAN, Carl. Cosmos. Companhia das Letras, 2017.
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