O Edifício Darke parece um dente podre na boca do Centro do Rio. Um bloco de concreto e mármore de segunda categoria que sobreviveu à ditadura, aos planos econômicos e, por algum milagre, ao fogo. Eu estava lá porque precisava de quinhentos pratas e não tinha medo do escuro. Ou achava que não tinha. O zelador oficial, um tal de Nonato — esse Rio é cheio de Nonatos, todos com cara de quem comeu algo estragado e gostou — me entregou o molho de chaves com as mãos tremendo tanto que parecia que ele estava segurando um fio desencapado.
— Não olha pras câmeras do quarto andar, Robert — ele disse, com uma voz que tinha gosto de medo e cigarro de palha. — E se o elevador abrir no nono, você não entra. Você corre.
Eu ri. Enfiei o uísque no bolso interno do casaco e sentei na guarita. O Centro à noite é um cemitério de luzes de neon e vira-latas. Hum… sabe como é? O silêncio no Darke é diferente. É um silêncio que tem peso. Tipo uma bigorna suspensa por um fio de cabelo sobre a sua nuca.
Lá pelas duas da manhã, o monitor da câmera 04 deu um chiado. Eu olhei. Não deveria ter olhado. O corredor estava vazio, mas no final dele, perto do extintor, havia uma mancha. Uma mancha que tinha a forma de um homem, mas que parecia um buraco recortado na realidade. Era o preto mais absoluto que eu já vi, mais escuro que o fundo de uma garrafa de cerveja preta.
O elevador pantográfico — aquela antiguidade que range como um condenado — começou a subir sozinho. O painel marcava: 1… 2… 3… 4. Parou. Eu vi na câmera: a porta de ferro abriu com um grito metálico. A mancha entrou. Cinco minutos depois, o elevador começou a descer. Ele não ia para o térreo. Ele parou no subsolo. Onde eu estava.
Robert, você é um idiota, a voz sussurrou na minha cabeça, mas não era paranoia, era constatação. Ele não está jogando. Ele não quer te assustar. Ele quer o espaço que você ocupa.






