Eu acabei de assistir o filme “O Drama”, estrelado por Zendaya e Robert Pattinson. E preciso confessar uma coisa logo de cara: eu gostei muito do filme. Mas se você der um Google agora e for ler as críticas dos grandes jornais americanos, vai achar que estamos falando da pior atrocidade já feita na história do cinema.
Tem crítico chamando o filme de “moralmente repugnante”, dizendo que o diretor “tem medo de mulheres” e até reclamando que o roteiro não dá uma “palestrinha” sobre questões raciais só porque o casal principal é interracial. Sinceramente? Parece que uma galera desaprendeu a ir ao cinema para se divertir e refletir, e agora só quer assistir a teses de mestrado.
Mas vamos ao que interessa. E prometo: sem spoilers pesados.
A premissa: Até onde você conhece quem você ama?
Na história, Zendaya é Emma e Robert Pattinson é Charlie. Eles são um casal de noivos prestes a subir ao altar. Durante a prova do cardápio da festa com o casal de padrinhos e com um pouco de álcool a mais na cabeça, surge uma daquelas brincadeiras perigosas: “Qual foi a pior coisa que você já fez na vida?”
Enquanto o personagem do Pattinson (que é meio bobão) revela algo banal, Emma solta uma bomba. A genialidade do roteiro é que ela não revela exatamente algo que fez, mas algo terrível que ela planejou e desejou fazer quando tinha 15 anos de idade. Ela só não executou o plano porque outra pessoa fez algo antes.
É aí que o filme te pega pelo pescoço. A partir dessa revelação, entramos em uma espiral de humor sombrio (aquela famosa “vergonha alheia” maravilhosa no estilo The Office) e um debate denso e 100% focado em diálogos afiadíssimos.
A hipocrisia da crítica
Vale destacar que Robert Pattinson e Zendaya são exemplos de atores extremamente talentosos que, em diferentes momentos da carreira, acabaram associados a projetos ou debates que muitas vezes ofuscaram suas qualidades artísticas. Pattinson carregou por anos o estigma de ter sido o rosto da franquia Crepúsculo, um fenômeno comercial gigantesco dos anos 2000 que conquistou uma legião de fãs, mas que também se tornou alvo constante de críticas. Para muitos observadores, a repercussão da saga quase limitou sua imagem pública, algo que afetou parte do elenco principal. Já Zendaya frequentemente se viu no centro de discussões culturais e políticas que pouco tinham a ver com sua atuação propriamente dita. Em diversas ocasiões, sua escalação em determinados projetos foi tratada por setores da imprensa e das redes sociais como combustível para disputas ideológicas entre conservadores e progressistas, situação semelhante à enfrentada por Halle Bailey em A Pequena Sereia. Felizmente, nos dois casos, o talento falou mais alto. Pattinson provou seu valor em produções cada vez mais desafiadoras, enquanto Zendaya consolidou sua reputação como uma das atrizes mais versáteis e carismáticas de sua geração, demonstrando que bons artistas acabam sobrevivendo às polêmicas passageiras e aos erros de escalação ou marketing que possam surgir pelo caminho.
Mas o que mais me chamou a atenção foi ler a reação da crítica especializada depois de assistir ao filme. Muitos detonaram o filme alegando que ele ofende as mulheres ao colocar uma personagem feminina com tendências quase psicopatas. Espera aí, vamos pensar juntos: nós passamos os últimos anos pedindo que Hollywood escrevesse mulheres reais, complexas, com falhas e profundidade. Aí, quando entregam uma personagem fascinante, que foge do estereótipo da “mocinha vítima”, a crítica surta porque ela é… sombria? Então quer dizer que no cinema só os homens têm o direito de serem retratados como malucos ou vilões complexos? É uma hipocrisia sem tamanho.
Se os papéis fossem invertidos e Pattinson tivesse feito a revelação, o filme seria óbvio: a narrativa de uma mulher precisando fugir de um relacionamento abusivo. Ao colocar a Zendaya nessa posição, o filme brinca com as nossas próprias leniências e preconceitos. O inesperado é o que dá o tom brilhante da história.
No fundo, “O Drama” não é um filme sobre um crime. É um filme sobre a narrativa que construímos para nós mesmos. Quando começamos a nos relacionar com alguém, nós fazemos um storytelling da nossa própria vida. Mostramos a nossa melhor versão, escondemos os defeitos e, com certeza, não listamos as maiores idiotices que fizemos aos 15 anos de idade. Afinal, nós somos hoje as pessoas que fomos na adolescência? Somos culpados por aquilo que pensamos em fazer, mas não fizemos?
O diretor foi brilhante ao usar três elementos que transformam qualquer ser humano: o trauma, a empatia e o tempo. São 15 anos separando a Emma adolescente da Emma adulta. É o suficiente para perdoar?
Veredito
Se você tem a oportunidade de assistir a “O Drama”, vá. É um dos roteiros mais originais, tensos e engraçados (de um jeito distorcido) do ano. Não tem cena sobrando, não tem desperdício de diálogo. É uma “dramédia” autêntica que confia na inteligência do público e não te entrega as respostas mastigadas.
Leve seu parceiro(a) para assistir com você. Eu garanto que o caminho de volta para casa vai render debates que vão durar a madrugada inteira. Só tomem cuidado com as brincadeiras de revelações no jantar depois, ok?
E você, já assistiu ou ficou com vontade de ver? Deixa aqui nos comentários o que você achou, quero saber se você concorda comigo ou com os críticos chatos!
Referências:
Variety: Zendaya and Robert Pattinson in A24’s ‘The Drama’: A Deep Dive into Moral Ambiguity – Artigo que discute a complexidade psicológica das atitudes dos protagonistas e o tom subversivo e incômodo do longa.
The Hollywood Reporter: Why ‘The Drama’ is Divorcing Critics from Audiences – Análise detalhada sobre o conflito entre a recepção da crítica especializada (comentando as reações de “repulsa”) e a estrutura narrativa genial do roteiro.
Deadline: A24 Pushes Boundaries Again with Kristoffer Borgli’s ‘The Drama’ – Cobertura focada nos diálogos afiados, no humor sombrio (no estilo The Office) e na direção que explora os limites da empatia e do trauma.






