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Início Literatura

A Origem do Prazer Obscuro: O Lado Sombrio da Literatura nas Obras de Sade e Masoch

Como "Os 120 Dias de Sodoma" e "A Vênus das Peles" deram origem ao sadomasoquismo e mudaram nossa visão sobre a dor.

6 de agosto de 2026
Em Literatura, Passeio fora da mente, Pensamentos, Reflexões
Tempo de leitura:  4 minutos de leitura
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Uma composição fotográfica dramática em uma escrivaninha de madeira escura e envelhecida, iluminada por um candelabro. Dois volumes de livros antigos e desgastados são o foco. O livro da esquerda, em couro marrom áspero, tem o título 'OS 120 DIAS DE SODOMA - MARQUÊS DE SADE' e uma corrente de ferro rústica sobre ele. O livro da direita, em couro preto elegante, tem o título 'A VÊNUS DAS PELES - S. MASOCH', repousando sobre veludo preto macio. No centro, um jornal antigo com caligrafia em português e a palavra 'SADOMASOQUISM' sublinhada. O fundo é uma biblioteca sombria.
PATROCINADOR

Sabe aquele momento em que você decide olhar para o abismo e, como diria Nietzsche, o abismo olha de volta para você? Foi exatamente essa a sensação que tive nas últimas semanas. Enquanto organizo os rascunhos e lapido as ideias para meus trabalhos, acabei sentindo a necessidade de mergulhar naquilo que o ser humano tem de mais visceral e inconfessável. E que melhor maneira de fazer isso do que encarando a dupla de livros mais proscrita, censurada e debatida da história da literatura?

Estou falando, é claro, de “Os 120 Dias de Sodoma”, do famigerado Marquês de Sade, e “A Vênus das Peles”, de Leopold von Sacher-Masoch. Duas obras que, juntas, não apenas chocaram a sociedade de suas épocas, mas acabaram cunhando um termo que pauta discussões, filmes e a psique humana até hoje: o sadomasoquismo.

A pílula vermelha da perversão humana

Se vivêssemos no universo de Matrix, ler esses dois livros seria o equivalente a tomar a pílula vermelha, mas acordar diretamente no covil dos Cenobitas de Hellraiser — onde a linha entre a dor extrema e o prazer absoluto simplesmente não existe. Essas não são leituras fáceis. Elas exigem estômago, mente aberta e uma boa dose de distanciamento crítico.

Começando pelo peso-pesado da controvérsia: Os 120 Dias de Sodoma. Escrito por Sade em 1785, enquanto ele estava trancafiado na prisão da Bastilha, o manuscrito original foi feito em um rolo de papel contínuo e escondido nas paredes da cela. O livro é um catálogo implacável e metódico da degradação. Acompanhamos quatro libertinos ricos e poderosos que se isolam em um castelo na montanha com um grupo de vítimas (incluindo suas esposas – que eles compartilhavam) para explorar absolutamente todos os limites da depravação.
Não há redenção na obra de Sade. É um texto claustrofóbico e mecânico, onde o sofrimento alheio é a única moeda de troca para o prazer do opressor. Ao dissecar o desespero de suas vítimas, o Marquês expôs uma faceta tão sombria do poder que a obra passou séculos banida, circulando apenas nas sombras.

A dor com requintes de veludo

Por outro lado, quando fechei Sade e abri A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch, o choque foi de outra natureza. Publicado quase um século depois, em 1870, o livro troca a violência crua por uma submissão psicológica quase teatral.
Acompanhamos a história de Severin, um homem que implora para ser tratado como escravo e humilhado pela bela e fria Wanda. Aqui, o poder não é tomado à força; ele é entregue de bandeja, com um contrato assinado e roupas de pele. É fascinante notar como o autor explora a dor não como uma imposição brutal, mas como uma jornada espiritual e estética. Diferente das masmorras literais de Sade, a prisão de Masoch é a própria mente de seu protagonista.

O nascimento de um conceito

O que torna essa experiência de leitura tão impactante é perceber como a arte molda a ciência. Foi o psiquiatra austríaco Richard von Krafft-Ebing que, em 1886, publicou o estudo Psychopathia Sexualis e decidiu unir os nomes desses dois autores para batizar as condições que eles descreveram com tanta precisão. Nascia aí o sadismo e o masoquismo.

Hoje, a cultura pop banalizou muito do peso original desses conceitos. Vemos reflexos pasteurizados disso em best-sellers contemporâneos e filmes de Hollywood, que tentam empacotar a submissão e o domínio com trilhas sonoras pop e laços de fita. Mas voltar às fontes originais é um lembrete poderoso de que a literatura tem o dever de nos desconcertar.

Essas obras nos lembram que a mente humana é um labirinto escuro. Como escritor, explorar esses cantos proibidos me dá uma dimensão muito mais profunda para construir personagens que vivem no limite. Os 120 Dias de Sodoma e A Vênus das Peles não são livros para você amar ou colocar na mesa de centro da sala. São espelhos incômodos. E, às vezes, olhar para o que nos assusta é o primeiro passo para entendermos do que realmente somos feitos.

Referências:

  • Krafft-Ebing, Richard von. Psychopathia Sexualis. (Estudo fundamental de 1886 que cunhou os termos).
  • Sade, Marquês de. Os 120 Dias de Sodoma. (Manuscrito da Bastilha, 1785).
  • Sacher-Masoch, Leopold von. A Vênus das Peles. (Publicação original em 1870).
  • The Guardian: Uma análise detalhada sobre o manuscrito original de Os 120 Dias de Sodoma, sua escrita claustrofóbica na Bastilha e o longo período em que a obra foi banida.
  • Encyclopædia Britannica: Verbete biográfico e literário sobre Leopold von Sacher-Masoch, documentando a publicação de A Vênus das Peles e como o autor explorou a submissão e a dor estética.
  • National Center for Biotechnology Information (NCBI): Um mergulho histórico na evolução da psicologia sexual, atestando o trabalho pioneiro do psiquiatra austríaco Richard von Krafft-Ebing com a publicação de Psychopathia Sexualis em 1886.
  • BBC Culture: Artigo que explora o peso do Marquês de Sade na cultura pop atual e debate as diferenças cruciais entre as obras originais e a versão pasteurizada que consumimos no século XXI.

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Tags: Cultura PopLiteratura ObscuraLivros BanidosMarquês De SadeResenha LiteráriaSacher-MasochSadomasoquismo
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Robert Gleydson

Robert Gleydson

Bem-vindo(a)! Sou Gleydson, e minha carreira se move na interseção entre a tecnologia, a arte e a comunicação. Como desenvolvedor de software e publicitário pós-graduado, meu foco é construir projetos que sejam não apenas funcionais, mas também criativos e esteticamente atraentes. ?

Sou um aficionado por fotografia, filmagem e por contar histórias, seja através de linhas de código ou de um texto bem escrito. Nas horas vagas, um bom filme, um livro interessante acompanhado de um ótimo café ☕ ou uma conversa inspiradora me recarregam.

Explore meu portfólio e vamos nos conectar para falar sobre tecnologia, criatividade e novas ideias. ?

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