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Nota do Autor: Este conto faz parte do meu projeto literário
Subversivamente.
O calor no Catete não é apenas uma temperatura, é uma entidade física que senta no seu peito e rouba o seu ar. O ventilador de teto girava com a mesma utilidade de um asmático soprando uma fogueira. Eu estava no meu velho sofá, do alto do meu metro e oitenta e com cinquenta e um anos bem pesados nas costas, bebendo uma cerveja que já tinha passado do ponto de gelada para o de mijo morno.
Morgana estava no tapete. Minha esposa. Morgana, a mulher que um dia foi uma advogada brilhante, daquelas que destroçam testemunhas no tribunal com a frieza de um Hannibal Lecter de terninho. Mas a mente humana é uma taça de vidro muito fina. Um dia, a taça dela trincou. Agora, ela passava os dias acendendo incensos que cheiravam a cemitério indiano e jurava que ouvia as vozes dos anjos. Ou demônios. Nunca fui muito bom em distinguir a diferença.
— É hoje, Robert — ela sussurrou, os olhos fixos num baralho de tarô espalhado no chão. — As cartas confirmam. A aura do garoto está perfeitamente alinhada.
O garoto. O filho do Deputado Linhares.
Você já se pegou pensando em como a ambição transforma a gente em ratos patéticos? Morgana tinha bolado um plano que faria Professor X parecer um amador. A ideia era brilhante na sua insanidade: nós sequestramos o moleque. Pedimos resgate? Não. Nós escondemos ele. Então, Morgana vai à mídia e à polícia, alegando ter tido uma “visão mediúnica” do cativeiro. Ela “encontra” a criança, vira a heroína nacional, e nós embolsamos os dois milhões da recompensa do Estado por informações. Fama & fortuna, com um toque de charlatanismo cósmico.
Eu não era o tipo de homem que deliberadamente procurava o sofrimento. Mas quando se vive com uma mulher que te analisa como se você fosse uma cobaia num laboratório, a gente acaba cedendo. A psicologia de Morgana era sufocante. Ela dissecava cada movimento meu. Se eu suspirava, ela dizia que minha aura estava turva. Uma paranoia constante, saca? Era como dormir com uma granada sem pino.
— tem certeza de que não é só a sua cabeça fritando, Morgana? — perguntei, dando um gole na minha bebida quente e tentando manter a ironia. tipo assim, a gente sempre veste uma armadura de cinismo pra esconder o desespero por baixo, sabe como é?
Afinal de contas, eu devia estar focado no meu próprio manuscrito. grande bosta. a verdade nua e crua é que eu sou um escritor falido, beirando os meus cinquenta e um anos no calor infernal do Catete, que nunca conseguiu vender a porra de um único livro. mantinha um bloguezinho no google sites e só… mas me veio à mente quando eu tentava empurrar minhas histórias pras editoras e só recebia o silêncio de volta. quem realmente sustentava a casa, quem botava a comida na mesa e pagava o meu uísque, era a Morgana, enrolando um bando de otários com falsas previsões e jogos de baralho. no fim das contas, a vida real ali na nossa sala estava se tornando muito mais nojenta, muito mais visceral, do que qualquer resenha de cinema que eu já tivesse cagado no teclado.
— Vá, Robert. Pôr a mão na massa. O motorista do colégio para na rua de trás às 17h.
A ação esquentou quando a chuva começou a cair, grossa e impiedosa. Eu estava estacionado a dois quarteirões do colégio suíço-brasileiro, num Opala roubado. Quando o motorista desceu para comprar um maço de cigarros na banca — um erro amador, mas o ser humano é estúpido —, eu me movi. A tática foi puramente visceral, no melhor estilo de uma operação clandestina dos livros do Tom Clancy. Infiltração rápida pelo ponto cego do retrovisor. Quebrei o vidro traseiro com um soco envolto numa flanela grossa. O garoto mal teve tempo de gritar. O clorofórmio no pano abafou o som. O baque surdo do corpo dele desabando no banco de trás foi o único ruído além dos trovões.
Trinta minutos depois, o moleque estava amarrado, com os olhos vendados e amordaçado no quartinho dos fundos do nosso cativeiro no meio da favela de Santa Teresa.
E foi aí que o abismo piscou de volta para nós. Morgana entrou no quartinho e começou a rodear o garoto. Eu a observava pela fresta da porta. Ela tremia. Não era um tremor de excitação. Era pânico. Ela olhava para o menino, depois olhava para o nada, os olhos esbugalhados.
— Ele tá me dizendo… — ela murmurou, a voz falhando. — A voz tá me dizendo que a semente do mal tá nele, Robert.
— Morgana, que porra é essa? O plano é você ir na delegacia amanhã de manhã. Você é a vidente, lembra?
— NÃO! — ela gritou, caindo de joelhos. — O menino é podre! O pai dele… o pai dele não o quer de volta. As vozes tão gritando, Robert! Tão gritando!
Que tempos penosos foram aqueles anos – ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade. Eu observei minha esposa. A ironia cortava o ar abafado como uma navalha enferrujada. O plano perfeito de uma mente paranóica tinha acabado de colidir com a realidade da sua própria psicose. Ela não queria a recompensa. Na cabeça doente dela, o garoto era um sacrifício.
Eu avancei para tirar o menino de lá. Pra soltar a criança e sumir no mundo. Mas Morgana foi mais rápida. Ela sacou um revólver calibre .38 da gaveta da cômoda — a arma que eu usava para proteção — e apontou pra mim.
— Ninguém sai, Robert. Ninguém. O sacrifício limpa o mundo.
A respiração dela era pesada, o cheiro de suor se misturando com o maldito incenso. E tipo assim… eu olhei pro cano da arma, olhei pra mulher que eu amei um dia, e percebi que Nelson Rodrigues sempre teve razão: o ser humano é cego para a própria escuridão até que tropeça nela e quebra o pescoço.
Ela apertou o gatilho. O clique seco ecoou.
Eu tinha tirado as balas de manhã. Eu conheço a mulher que durmo junto.
Segurei os pulsos de Morgana com força. A gente embolou ali mesmo, suando, lutando pela porra da arma. Ela tinha a força desesperada de quem já rasgou o bilhete da sanidade, sabe como é? Parecia a Ellen Ripley lutando contra a rainha Alien, puro instinto cego. Mas eu tinha o dobro do peso. Torci o braço dela até o revólver cair no chão de madeira com um estalo surdo. No fim das contas, consegui dominar a fera. Amarrei a Morgana bem firme numa cadeira velha e enfiei um pano na boca dela como mordaça. Ela me fuzilava com os olhos, se debatendo.
Fui até o garoto e o desamarrei. Ele me olhava com um misto visceral de terror e alívio. Enfiei ele no carro & dirigi rasgando a chuva até um terreno baldio bem longe dali, um buraco escuro e esquecido… sem porra de câmera de segurança nenhuma nos postes e, graças a deus, sem nenhuma alma viva pra servir de testemunha. Soltei ele lá no meio do nada. A vida é assim mesmo, a gente faz o que tem que fazer e torce pra não acordar com a corda no pescoço.

Voltei para o meu apartamento no Catete com um único pensamento: pegar minhas roupas, os meus manuscritos de merda e dar o fora do Rio de Janeiro. A adrenalina ainda pulsava nas têmporas. Enfiei a mão no bolso, buscando um cigarro, e meu estômago despencou. Cadê a porra do meu celular? Eu tinha deixado lá em Santa Teresa. No cativeiro. Merda.
Fiz o retorno rasgando os pneus no asfalto molhado e subi as ladeiras de volta a Santa Teresa. O suor frio descia pela espinha. Abri a porta do cativeiro com o coração batendo na garganta, mas o cheiro metálico de sangue inundou minhas narinas na mesma hora.
Morgana estava no chão, num mar escuro e espesso. Ela tinha conseguido se soltar daquela cadeira velha. A garganta estava cortada de orelha a orelha com uma faca de cozinha. A polícia diria que foi suicídio num surto psicótico, mas eu sabia a verdade. Foi a única maneira que ela encontrou para silenciar aquelas malditas vozes de vez.
Não tive tempo para luto, desespero ou filosofia barata. O instinto visceral de sobrevivência assumiu o controle. Fiz uma limpeza cirúrgica no cativeiro para eliminar qualquer evidência de que eu estive lá. Esfreguei as maçanetas, a madeira da cadeira, os cantos da porta e tudo o que minhas mãos pudessem ter tocado, garantindo que nenhuma impressão digital ficasse para contar história. Peguei o celular do chão e me mandei de lá em direção ao Catete.
O Rio de Janeiro lá fora continuava o mesmo. Quente, indiferente e cruel. Meu plano era juntar a bagagem e sumir pelo mapa, virar fumaça.
Mas a vida tem um senso de humor sádico e azedo. Quando cheguei no meu apartamento, a polícia já estava me esperando na calçada. Dois camburões, luzes giratórias refletindo nas poças d’água. Fui enquadrado e algemado antes mesmo de entender o golpe.
Mais tarde, na delegacia, descobri a ironia da noite: um mendigo que estava catando latas no breu daquele terreno baldio viu perfeitamente quando eu soltei o garoto. O miserável gravou as características do Opala roubado, a placa e a minha cara de escritor cansado, e entregou o pacote completo de bandeja para os tiras, em troca de pinga e alguns trocados.
E eu… bom, terminei a noite preso, escutando o metal da cela bater. Meu livro não publicado vai ter que ser finalizado numa cadeia superlotada, provando que a pior prisão não é a das grades, mas a do acaso. No fim das contas, a gente sempre acaba pagando a conta da loucura alheia, com os juros dos nossos próprios descuidos de merda.