Conto: “A Ressaca do Glitter e o Camarote”

Entre o luxo monárquico e o asfalto da Sapucaí: um conto sobre pular o alambrado.

Robert, vestindo o abadá do "Nosso Camarote", conversa com uma senhora da Velha Guarda na beira da pista da Sapucaí.

No melhor camarote da Sapucaí, Robert descobriu que a verdadeira exclusividade está no asfalto.

🖋️ Nota do Autor: Este conto faz parte do meu projeto literário Subversivamente.

A bateria da Mangueira ainda ecoava no meu esterno, mas o que me chamou a atenção não foi o brilho das alegorias. Foi o colapso.

Estávamos no “Nosso Camarote”. Sabe como é, né? O lugar é um dos poucos que ainda preserva aquele luxo obsceno dos eventos VIPs da monarquia do Rio de Janeiro. É um “cercado” cheio de privilégios onde o champanhe nunca para de borbulhar. Mas a verdadeira jogada é que lá você está no nível da apoteose. É um dos raros pontos onde não há abismo entre você e o desfile. Os carros alegóricos passam na distância de um braço estendido; você sente o deslocamento de ar das esculturas gigantes e o cheiro de suor e maquiagem das alas, como se estivesse desfilando sem precisar dar um passo. É uma experiência imersiva para quem quer sentir o cheiro do povo sem ter que pisar no mesmo chão que ele.

No canto do camarote, perto do buffet de lagosta que ninguém comia por medo de borrar o batom, meu amigo estava tendo um troço.

Não era um infarto. Era pior. Era a realidade furando a bolha.

— Ela me bloqueou, Robert. No meio do desfile da Viradouro — ele balbuciou, os olhos injetados como se tivesse passado a noite cheirando pó de giz.

Eu olhei para ele. O cara era um tubarão do mercado financeiro, tipo um vilão de filme do Gordon Gekko, mas ali, com um colar de havaiana de plástico no pescoço, ele parecia um filhote de cachorro abandonado na chuva.

— Bloqueou porque você é um chato, meu caro — eu disse, sem tirar o cigarro (apagado, por causa das normas, que piada) da boca. — O Carnaval serve pra gente esquecer quem a gente é, mas você levou seu ego pro sambódromo. É como levar um vibrador pra um convento. Não combina.

Ele me olhou com um ódio que durou dois segundos, antes de desmoronar num choro silencioso, abafado pelo samba-enredo sobre a resistência negra. A ironia era tão espessa que dava pra cortar com uma faca de pão. Ali, no conforto do ar-condicionado 18°C, um homem branco rico chorava porque o Wi-Fi do camarote permitiu que ele descobrisse que era corno em tempo real, enquanto lá fora, na avenida, um passista com uma fantasia pesando 30 quilos sorria com dentes de porcelana, escondendo a fome e o cansaço.

E a loira? Ah, a loira do meu lado já tinha achado outro “Robert”. Um tipo mais jovem, com mais dentes e menos cicatrizes mentais. Eu os vi se pegando perto do palco do show de funk. Foi uma cena digna de National Geographic: o acasalamento dos privilegiados.

Hum… me deu uma náusea súbita. Não do álcool, mas da simetria daquilo tudo.

A bateria da Mangueira não pediu licença; ela arrombou a porta da Sapucaí com o pé no peito. O som dos surdos de primeira era tão grave, tão ancestral, que eu sentia o uísque barato chacoalhar dentro do meu estômago. Era um paredão de som, uma força física que fazia o vidro do camarote — aquele aquário de gente pálida — tremer como se estivesse prestes a estilhaçar.

🔓 Desbloquear o restante da história”

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