Por que não temos mais ídolos? Minha jornada do CD importado de ‘A Balada do Pistoleito’ até Robbie Williams

Uma reflexão pessoal sobre Robbie Williams e a era do streaming.

Robbie Williams no palco com os braços erguidos, vestindo um colete dourado e sorrindo para a plateia.

Robbie Williams em performance eletrizante, o artista que se tornou o centro de uma reflexão sobre a paixão e a superficialidade na música. (Créditos: Divulgação/Robbie Williams Official)

Eu já passei dos 40.

Sei que parece clichê começar um texto assim, mas é importante para o que quero conversar hoje. Eu sou do finalzinho da Geração X. Peguei o mundo antes da internet discada ser algo comum e depois que ela dominou tudo. E talvez seja por isso que eu sinto que a minha geração (e as anteriores, claro) tinha uma relação mais… física, mais profunda, com as coisas que gostávamos.

Hoje, vivemos o que o Bauman chamaria de “relações líquidas”. Só que eu acho que isso foi além dos relacionamentos amorosos. Nossa relação com a arte, com a música, com o cinema, também se tornou líquida.

Deixa eu explicar com uma história.

 

A espera pelo “Pistoleiro”

 

Lá por 1995, eu, adolescente, assisti a “A Balada do Pistoleiro” (Desperado), com o Antonio Banderas e a Salma Hayek. O filme era ótimo, mas o que me pegou de verdade foi a trilha sonora. Cara, aquela trilha.

Naquela época, não existia Spotify. Não dava para “shazamar” a música e ouvir em cinco segundos. Eu precisava ter aquele CD. E aí começou a jornada.

Descobri que só existia uma loja, lá em Copacabana, no Rio de Janeiro, que importava CDs. Liguei para lá, fiz a encomenda e esperei. E esperei. Foram quase 30 dias até o bendito CD chegar dos Estados Unidos (ou de onde quer que ele viesse). Paguei caro. Mas quando aquele disco chegou nas minhas mãos, ele era meu.

Eu ouvi aquele CD até quase gastar. O CD só não furou de tanto ser ouvido porque, bom, CD player não tinha agulha. Eu sabia a ordem das músicas, lia o encarte, decorava as letras (mesmo errando 90% do inglês/espanhol). Eu tinha uma relação íntima com aquele álbum.

 

O paradoxo do artista “genérico”

 

Corta para hoje. Tudo é instantâneo. E, talvez por isso, tudo pareça tão descartável.

As músicas são descartáveis. Os artistas parecem descartáveis. A gente “gosta” de uma música no TikTok, ela vive por três semanas e morre. Ninguém mais tem a posse do que gosta. Temos acesso, não posse.

Isso cria uma situação bizarra: temos artistas hoje que, em números de streams, são mais tocados do que Elvis Presley ou Michael Jackson. São gigantes estatísticos. Mas aí, o artista vai fazer um show e… não consegue vender todos os ingressos.

Como assim? Como você é “maior que Michael Jackson” e não lota uma arena?

É simples: a relação é líquida. As pessoas ouvem passivamente, o algoritmo empurra, mas elas não se conectam. Elas não compraram o CD importado. Elas não esperaram.

 

A minha própria relação líquida

 

E o pior? Eu me peguei fazendo exatamente isso.

Há algumas semanas, estava trabalhando e do flow do meu Deezer, que fica 24 horas tocando de fundo na Alexa, pulou uma música no aleatório: “Advertising Space”, de Robbie Williams. Adorei a música de cara. Que letra, que melodia. Fui atrás para saber quem cantava.

Quando vi que era o Robbie Williams, eu parei. Pensei: “Ué, eu conheço esse cara”.

Claro que eu conhecia. Eu já tinha ouvido dezenas de músicas dele, como “Angels” ou “Millennium”, que tocavam sem parar em programas de TV, em lojas, em rádios. Mas, para mim, aquilo tudo caía numa gaveta mental chamada “POP Genérico”.

Eu nunca tinha parado para associar as músicas a ele. Eu tinha uma relação completamente superficial e líquida com o trabalho dele, mesmo gostando das músicas individualmente.

Como um bom “X man”, meu instinto foi o oposto do líquido: foi o de mergulhar.

Fui pesquisar o cara. Vi que temos praticamente a mesma idade. Ouvi os álbuns. Li sobre a história dele. Assisti ao filme biográfico (aquele bizarro onde ele é interpretado por um gorila, sério, procurem!) e, de repente, tudo fez sentido. As letras, as dores, a ironia.

Eu, que reclamo do superficial, estava sendo superficial.

 

Conclusão: A escolha de mergulhar

 

O mundo hoje te empurra para o raso. O algoritmo quer que você ouça 30 segundos e pule. A velocidade da informação quer que você veja o título e não leia a matéria. É mais fácil, é mais rápido.

Mas o que eu descobri nessa história boba com o Robbie Williams é que a profundidade não foi extinta. Ela só se tornou uma escolha mais difícil.

Nós, da Geração X, talvez tenhamos a vantagem de lembrar como era antes. Como era esperar o CD chegar, como era folhear o encarte. E, talvez por isso, nosso instinto “X man” de pesquisar, verificar e nos aprofundar seja o melhor antídoto contra a liquidez.

Hoje, sou fã do Robbie Williams. De verdade. Não porque o algoritmo mandou, mas porque eu decidi parar, mergulhar e transformar aquele “POP genérico” em algo que, para mim, agora tem peso, história e significado.

E, quer saber? É muito mais legal assim.


Referências:

  • Filme: A Balada do Pistoleiro (Desperado), 1995. Dirigido por Robert Rodriguez.
  • Música: “Advertising Space” (2005), por Robbie Williams.
  • Filme: Better Man (2024), cinebiografia de Robbie Williams.

Aprofundando:

  • Sobre o Conceito de “Relações Líquidas” na Arte e Consumo:
    • Fonte: UOL Educação / Colunas Tortas
    • Confirma que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu a “modernidade líquida” como um tempo em que as relações, incluindo o consumo, se tornaram voláteis, efêmeras e descartáveis, em oposição à “modernidade sólida” do passado.
  • Sobre “A Balada do Pistoleito” (Desperado):
    • Fonte: AdoroCinema
    • Confirma o lançamento em 1995, a direção de Robert Rodriguez e o elenco principal (Antonio Banderas, Salma Hayek). A trilha sonora, um pilar do filme, é creditada a bandas como Los Lobos e Tito & Tarantula.
  • Sobre a Cinebiografia de Robbie Williams ser um Macaco (CGI):
    • Fonte: Rolling Stone Brasil / AdoroCinema
    • Confirma a informação de que na cinebiografia “Better Man”, o cantor é retratado por um chimpanzé em CGI. O diretor explicou que a ideia surgiu do próprio Robbie Williams, que frequentemente se descrevia como um “macaco performático” (performing monkey).
  • Sobre o Fenômeno de Gigantes do Streaming vs. Baixa Venda de Ingressos:
    • Fonte: Business Week Brasil
    • Um artigo detalhado que confirma o paradoxo: “Streaming domina o mercado musical, mas não representa venda de ingressos”. A matéria explica que artistas com milhões de streams muitas vezes enfrentam dificuldade em converter essa audiência digital em público pagante para shows.

Imagem:

  • Divulgação/Robbie Williams Official
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