Crítica de “O Morro dos Ventos Uivantes”: Como o novo ‘Wuthering Heights’ transformou vingança em vitrine

Como a nova versão ignorou a brutalidade de Emily Brontë para vender um romance pasteurizado para a nova geração.

Cena de perfil estilizada de Jacob Elordi como Heathcliff e Margot Robbie como Catherine em trajes de época, inclinando-se para um beijo íntimo no filme Wuthering Heights (2026).

Heathcliff (Jacob Elordi) e Catherine Earnshaw (Margot Robbie) em momento de tensão romântica na adaptação sensual de Emerald Fennell para 'Wuthering Heights' (2026). Créditos: Warner Bros. Pictures / A23

Fala, meus nobres! Direto do meu bunker, com uma xícara de café que já esfriou, venho trazer um papo sobre uma das adaptações mais polêmicas dos últimos tempos. O tal Wuthering Heights da Emerald Fennell chegou aos cinemas e já me deixou com uma pulga atrás da orelha. A diretora tentou reinventar a roda. Parece indicar, no entanto, que o pneu furou bem no meio da estrada. 😉

1. Introdução: O Contexto

Sempre fui um cara que respeita a brutalidade crua da vida. Quando a gente pega o clássico da Emily Brontë para ler, a expectativa é sentir o cheiro de terra molhada, ressentimento e escolhas que destroem gerações. A obra original é um soco no estômago. Aí chega essa nova versão hollywoodiana prometendo mundos e fundos. Estava eu aqui na minha poltrona esperando aquela descida lenta ao inferno humano, mas acabei ganhando um passeio na Disney. É bizarro notar como a indústria atual tem medo de abraçar a escuridão real da alma.

2. A Sinopse (Sem Spoilers!)

Para quem estava em Marte e não conhece a história básica, o negócio é bem direto. Heathcliff (Jacob Elordi) é um garoto órfão acolhido pela família Earnshaw. Ele e a filha da casa, Catherine (Margot Robbie), criam uma conexão profunda e selvagem. Porém, a vida adulta cobra seu preço. As diferenças de classe falam mais alto e a moça decide casar com o engomadinho rico da vizinhança. Nosso protagonista marginalizado vai embora, enriquece de forma sombria e volta para cobrar a fatura de todo mundo que pisou nele no passado. O esqueleto do roteiro até está lá. A diferença colossal é a embalagem.

3. Análise Crítica: O Corpo da Resenha

Vou jogar limpo com vocês logo de cara. O filme é assistível se você decidir desligar o cérebro na recepção do cinema. É um romance moderno e bonitinho, embalado para o consumo rápido da molecada. Os cenários e figurinos são lindos? Sim, absurdamente coloridos, extravagantes e exagerados até o talo. A diretora claramente não quis filmar a realidade fria e lamacenta dos pântanos ingleses. Ela filmou um delírio. Fez tudo como se fosse um sonho da própria juventude sobre o impacto do livro, um desejo de infância que conseguiu realizar:

Uma prova disso e que em entrevista recente para a Fandango, a diretora explicou o uso da pontuação no título:

“Para mim, não acho que seja possível adaptar algo tão denso, complicado e difícil como esse livro. Eu não posso dizer que estou fazendo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’. Não é possível. O que posso dizer é que estou fazendo uma versão dele. Tem uma versão que eu me lembro de ler, que não é muito real, e tem uma versão que eu queria que acontecesse, que nunca aconteceu. Então, é ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e não é. Mas, realmente, eu diria que qualquer adaptação de um livro, especialmente de um como este, deveria ter aspas nela”.

É válido, mas um problema com o filme, que transcende o original é que a estética engole o conteúdo. Fica tudo com uma cara onírica que mais parece um longo videoclipe de música pop. É como se pegassem o Batman do Cavaleiro das Trevas e colocassem ele para estrelar uma comédia romântica açucarada na Sessão da Tarde. Você olha para a tela e vê um milkshake de morango com glitter, quando o que a história exigia era um uísque puro e sem gelo.

4. Diferenças, críticas e Spoilers!

Aqui é onde a coisa fica feia de verdade e o papo fica mais técnico. Quem leu o livro e entendeu a mensagem vai querer rasgar a tela do cinema. A produção não tem quase nada a ver com o material original. Eles pegaram os personagens, enfiaram num liquidificador (rolou uma mixagem sinistra de vários personagens secundários em um só) e decidiram mudar a essência da parada. A obra da Brontë não é um romance. O livro fala de maldade pura, vingança sádica e as consequências das nossas piores atitudes.

E tem um detalhe narrativo crucial que ferrou com tudo: o ponto de vista. No longa, a gente engole a história pela ótica da própria Catherine. Virou o diário de uma adolescente apaixonada. No livro original, a coisa é genial justamente porque quem conta tudo é a governanta, Nelly Dean. E vamos mandar a real? A Nelly era uma narradora zero confiável. Ela mesma tinha seus ressentimentos, recalques e invejas contra aquela galera. Muita da maldade e do tom pesado da obra literária é fruto da mente dela, da forma como ela filtrava e julgava os fatos. Quando o filme arranca a história das mãos dessa fofoqueira rancorosa e entrega para a visão romantizada da Cathy, a obra perde toda aquela ambiguidade sombria e desce pelo ralo.

Para piorar, desde a primeira até a última cena, o filme tenta sensualizar absolutamente tudo. Embora não mostre quase nada explícito, a tensão de quarto de motel permeia o ar o tempo todo. No livro, Heathcliff e Cathy jamais fizeram amor. A conexão deles era metafísica. Era uma doença do espírito e algo muito maior do que a carne. Aqui, transformaram o cara num herói incompreendido movido por tesão reprimido. Acabaram de vez com a complexidade do monstro.

5. Conclusão e Veredito

Sinceramente, vamos separar a ficção da realidade aqui. Se você não faz a menor ideia do que é a obra original da Emily Brontë, o filme acaba sendo um romance bem interessante. É uma daquelas boas pedidas para jogar no streaming no fim de semana, com um balde de pipoca e uma Coca-Cola gelada. Dá até para assistir tranquilamente com os adolescentes da casa, pois não tem nada de sexo explícito (o que cai como uma luva, já que essa nova geração parece sentir um desconforto absurdo até em ver silhuetas de corpos na tela, não é mesmo?).

Agora, se você conhece o livro, sentiu o peso da história e gostou daquela escuridão toda… meu amigo, passe longe. Você não vai encontrar absolutamente nenhuma semelhança na tela, a não ser os nomes dos personagens e as locações.

Na minha opinião, se você quer assistir à versão da obra que mais se aproximou da essência e da brutalidade dos livros, procure a adaptação de 1992, estrelada por Ralph Fiennes e Juliette Binoche. Sim, eu sei muito bem que o Ralph é um homem caucasiano e passa longe do “cigano de pele escura” descrito pela autora, mas a atmosfera rancorosa e a atuação entregam exatamente o que a história pede. O resto? É só vitrine.

Nota: 4/10 (Pelas paisagens e para curtir como um entretenimento pipoca, porque para os fãs da obra, é perda de tempo).

Prós e Contras

  • Prós: A fotografia e os figurinos são deslumbrantes se você curte uma viagem visual extravagante e desconectada da realidade.

  • Contras: Desrespeita a essência do material original, ignora a genialidade da narração não-confiável de Nelly Dean, transforma o ódio profundo em tensão sexual barata e reduz personagens muito densos a estereótipos rasos.

Encerramento

Vou ali fazer outro café porque esse filme me deu preguiça. Pensem bem antes de gastar o suado dinheiro de vocês com ingressos caros, meus nobres. A vida é muito curta para assistir a adaptações frouxas. Fiquem firmes, cultivem a própria mente e até a próxima transmissão direto do bunker.

Referências:

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