O Enigma do Mal: Crítica ao Clássico de Terror de 1982 com Fantasma mais Tarado do Cinema

Uma análise sobre o filme que transformou o lar no lugar mais assustador do mundo.

A atriz Barbara Hershey como Carla Moran no filme 'O Enigma do Mal', olhando assustada para algo fora de quadro dentro de um banheiro.

Barbara Hershey na icônica cena do banheiro em "O Enigma do Mal" (1982). Foto: Divulgação / 20th Century Fox.

Como abasteci minha dispensa de pipoca e tinha uma coca zero estupidamente gelada na minha geladeira, resolvi assistir a um clássico de terror. Confesso que ainda não tinha visto este filme, e a surpresa foi imensa ao dar play nessa jóia do suspense.

Sabe aqueles filmes que grudam na sua mente e se recusam a sair? Preciso falar sobre um clássico que, mesmo com meio século de vida, ainda causa mais calafrios do que muito terror moderno. Estou falando de “O Enigma do Mal” (The Entity), de 1982. E se você acha que terror é só sobre jump scares e monstros no armário, prepare-se, porque essa conversa vai ser intensa.

Do que se trata essa loucura?

 

O filme é conduzido por Sidney J. Furie (SuperMan 4) e a trama é direta e brutal. Acompanhamos Carla Moran (interpretada magistralmente por Barbara Hershey), uma mãe sozinha que tenta criar seus três filhos da melhor maneira possível. A vida já não é fácil, mas tudo vira um pesadelo absoluto quando ela começa a ser violentamente atacada e abusada sexualmente por uma entidade invisível dentro de sua própria casa. Desacreditada por médicos, ela busca ajuda em um grupo de parapsicólogos, que tentam transformar seu inferno pessoal em um experimento científico para provar a existência do sobrenatural.

 

Baseado em fatos? Sim, mas com um grande “talvez”

 

Uma das coisas mais perturbadoras sobre o filme é o selo “supostamente baseado em fatos reais”. A história foi inspirada no caso de Doris Bither, uma mulher que, nos anos 70, alegou sofrer os mesmos tipos de ataques. Claro, a gente fica com a pulga atrás da orelha. Seria um relato genuíno ou, como alguns sugerem, o depoimento trágico de uma paciente com sérios problemas mentais? O filme não te deixa nessa dúvida, passa direto para o terror real, e é exatamente essa ambiguidade com a história original que o torna ainda mais assustador.

 

O terror visceral de um fantasma tarado

 

Esqueça os sustos fáceis. O medo aqui é outro. É visceral. É a angústia de Carla, a invasão do espaço mais sagrado que existe: o nosso lar. Você sente o pavor dela a cada rangido da porta, a cada sombra no canto do olho. Como uma mulher solteira, com duas filhas pequenas e um adolescente, poderia simplesmente ir embora? Não ter para onde correr é uma das facetas mais cruéis do horror.

E vamos ser diretos: a entidade é um fantasma tarado. Os ataques são sinistros, desconcertantes e de uma brutalidade que choca. Numa das cenas mais lembradas, o abuso acontece na frente de suas crianças (os anos 80 eram para os fortes). É pesado, é perturbador e é o tipo de cena que você não esquece.

 

Uma cápsula do tempo dos anos 80

 

Assistir a “O Enigma do Mal” hoje é também uma viagem no tempo. Tudo que tinha de errado (e característico) nos anos 80 está lá. A cena mais emblemática e datada é uma em que um grupo de médicos delibera sobre o caso de Carla numa sala fechada… fumando todos os tipos de cigarros, charutos e cachimbos. Juro, só de olhar a fumaça na tela eu comecei a tossir!

O filme também tem aquela estética da época, casas , veículos, o modo de vida. E também conta com a apelação típica dos Baby Boomers: que apela para silhuetas, seios, bumbuns e uma nudez mais “natural” (a protagonista tem esse potencial), mas que hoje soa um pouco estranha, principalmente algumas das cenas de abuso, onde usaram um tipo de corpo de plástico para simular os toques fantasmagóricos no corpo da coitada. Os efeitos podem parecer toscos para os padrões atuais, mas, para a época, eram incrivelmente eficazes e inovadores.

 

De filme de terror a investigação paranormal

 

O que eu acho genial na estrutura do filme é sua mudança de tom. Ele começa como um terror de assombração clássico, passa para um filme de analise psicologica (onde o ótimo Ron Silver brilha como o cético Dr. Sneiderman)  e, aos poucos, se transforma em uma espécie de documentário de investigação paranormal. A chegada da equipe de cientistas traz uma nova camada à história, tentando capturar o invisível com tecnologia e razão.

A atuação de Barbara Hershey é um espetáculo à parte. Ela arrebenta no papel, transmitindo cada grama de dor, medo e, finalmente, de fúria da sua personagem. Você acredita nela, sofre com ela e torce por ela. A propósito, vi uma foto recente dela, está com quase 80 anos e continua tão linda quanto no filme, ainda com rostinho de menina. Impressionante!

 

O final… e um spoiler inevitável

Daqui para fente é só spoiler

Se você espera uma grande reviravolta ou um final feliz, talvez se decepcione. O desfecho é meio frustrante, mas, pensando bem, é justo com a proposta do filme. Ele não busca uma solução fácil.

Depois de uma tentativa colossal de prender a entidade usando hélio líquido, Carla, exausta, volta para casa, que agora está silenciosa e vazia. Por um momento, parece que acabou. Então, uma voz ecoa pelo lugar, dizendo a frase que sela o destino de sua paz:

“Bem-vinda ao lar, vadia.”

Fim. Arrepiante.

“O Enigma do Mal” é lento, sim, mas é uma lentidão que constrói uma atmosfera densa e sufocante. É um filme intenso, maluco e assustador que prova que o verdadeiro terror não precisa de monstros, apenas da violação da nossa segurança e da nossa sanidade. Um clássico absoluto.

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