Sabe aquele momento em que você decide olhar para o abismo e, como diria Nietzsche, o abismo olha de volta para você? Foi exatamente essa a sensação que tive nas últimas semanas. Enquanto organizo os rascunhos e lapido as ideias para meus trabalhos, acabei sentindo a necessidade de mergulhar naquilo que o ser humano tem de mais visceral e inconfessável. E que melhor maneira de fazer isso do que encarando a dupla de livros mais proscrita, censurada e debatida da história da literatura?
Estou falando, é claro, de “Os 120 Dias de Sodoma”, do famigerado Marquês de Sade, e “A Vênus das Peles”, de Leopold von Sacher-Masoch. Duas obras que, juntas, não apenas chocaram a sociedade de suas épocas, mas acabaram cunhando um termo que pauta discussões, filmes e a psique humana até hoje: o sadomasoquismo.
A pílula vermelha da perversão humana
Se vivêssemos no universo de Matrix, ler esses dois livros seria o equivalente a tomar a pílula vermelha, mas acordar diretamente no covil dos Cenobitas de Hellraiser — onde a linha entre a dor extrema e o prazer absoluto simplesmente não existe. Essas não são leituras fáceis. Elas exigem estômago, mente aberta e uma boa dose de distanciamento crítico.
Começando pelo peso-pesado da controvérsia: Os 120 Dias de Sodoma. Escrito por Sade em 1785, enquanto ele estava trancafiado na prisão da Bastilha, o manuscrito original foi feito em um rolo de papel contínuo e escondido nas paredes da cela. O livro é um catálogo implacável e metódico da degradação. Acompanhamos quatro libertinos ricos e poderosos que se isolam em um castelo na montanha com um grupo de vítimas (incluindo suas esposas – que eles compartilhavam) para explorar absolutamente todos os limites da depravação.
Não há redenção na obra de Sade. É um texto claustrofóbico e mecânico, onde o sofrimento alheio é a única moeda de troca para o prazer do opressor. Ao dissecar o desespero de suas vítimas, o Marquês expôs uma faceta tão sombria do poder que a obra passou séculos banida, circulando apenas nas sombras.
A dor com requintes de veludo
Por outro lado, quando fechei Sade e abri A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch, o choque foi de outra natureza. Publicado quase um século depois, em 1870, o livro troca a violência crua por uma submissão psicológica quase teatral.
Acompanhamos a história de Severin, um homem que implora para ser tratado como escravo e humilhado pela bela e fria Wanda. Aqui, o poder não é tomado à força; ele é entregue de bandeja, com um contrato assinado e roupas de pele. É fascinante notar como o autor explora a dor não como uma imposição brutal, mas como uma jornada espiritual e estética. Diferente das masmorras literais de Sade, a prisão de Masoch é a própria mente de seu protagonista.
O nascimento de um conceito
O que torna essa experiência de leitura tão impactante é perceber como a arte molda a ciência. Foi o psiquiatra austríaco Richard von Krafft-Ebing que, em 1886, publicou o estudo Psychopathia Sexualis e decidiu unir os nomes desses dois autores para batizar as condições que eles descreveram com tanta precisão. Nascia aí o sadismo e o masoquismo.
Hoje, a cultura pop banalizou muito do peso original desses conceitos. Vemos reflexos pasteurizados disso em best-sellers contemporâneos e filmes de Hollywood, que tentam empacotar a submissão e o domínio com trilhas sonoras pop e laços de fita. Mas voltar às fontes originais é um lembrete poderoso de que a literatura tem o dever de nos desconcertar.
Essas obras nos lembram que a mente humana é um labirinto escuro. Como escritor, explorar esses cantos proibidos me dá uma dimensão muito mais profunda para construir personagens que vivem no limite. Os 120 Dias de Sodoma e A Vênus das Peles não são livros para você amar ou colocar na mesa de centro da sala. São espelhos incômodos. E, às vezes, olhar para o que nos assusta é o primeiro passo para entendermos do que realmente somos feitos.
Referências:
- Krafft-Ebing, Richard von. Psychopathia Sexualis. (Estudo fundamental de 1886 que cunhou os termos).
- Sade, Marquês de. Os 120 Dias de Sodoma. (Manuscrito da Bastilha, 1785).
- Sacher-Masoch, Leopold von. A Vênus das Peles. (Publicação original em 1870).
- The Guardian: Uma análise detalhada sobre o manuscrito original de Os 120 Dias de Sodoma, sua escrita claustrofóbica na Bastilha e o longo período em que a obra foi banida.
- Encyclopædia Britannica: Verbete biográfico e literário sobre Leopold von Sacher-Masoch, documentando a publicação de A Vênus das Peles e como o autor explorou a submissão e a dor estética.
- National Center for Biotechnology Information (NCBI): Um mergulho histórico na evolução da psicologia sexual, atestando o trabalho pioneiro do psiquiatra austríaco Richard von Krafft-Ebing com a publicação de Psychopathia Sexualis em 1886.
- BBC Culture: Artigo que explora o peso do Marquês de Sade na cultura pop atual e debate as diferenças cruciais entre as obras originais e a versão pasteurizada que consumimos no século XXI.
