Resenha: O Café no Fim do Mundo vale a leitura?

Descubra por que este livro curto e direto divide opiniões, mas pode transformar sua forma de enxergar a rotina.

Uma mão segurando um e-reader Kindle exibindo a capa do livro O Café no Fim do Mundo, de John Strelecky.

Capa do best-seller "O Café no Fim do Mundo" na tela de um dispositivo Kindle. (Créditos: Imagem fornecida pelo usuário / Reprodução)

Sabe aqueles dias em que a pessoa acorda, toma seu café preto e se pergunta se a vida é só isso mesmo? Bater ponto, pagar boleto e esperar o fim de semana. Foi assim que o escritor dessa obra estava se sentindo quando decidiu dar luz para o livro O Café no Fim do Mundo.

A história real por trás da criação dessa obra é quase tão curiosa quanto o próprio enredo inventado. O autor, John Strelecky, não era um guru intocável ou um mestre da sabedoria oriental. Lá pelo ano de 2002, após vinte anos no mundo dos negócios, ele e a esposa ficaram subitamente sem trabalho. O que eles fizeram diante desse abismo financeiro? Pegaram suas mochilas e foram dar uma volta ao mundo.

Quando retornou dessa imersão global, Strelecky sentou e escreveu esse texto curtinho. Ele mesmo publicou o material de forma independente no final de 2003. O livro original tinha até uma tartaruga marinha verde simpática ilustrando a capa. Sem nenhuma campanha milionária de marketing, a obra simplesmente explodiu no boca a boca. Todo esse sucesso parece indicar que a mensagem certa encontra seu público quando toca em dores genuínas.

O que mais me prendeu na obra é o seu formato compacto. Estamos falando de um livro muito direto, beirando as 120 páginas. Eu consegui ler de capa a capa em um único dia. E olha que não precisei apelar para técnicas de leitura dinâmica. Fui no meu ritmo natural, absorvendo cada página devagar, degustando as conversas do protagonista com a garçonete Casey e o cozinheiro Mike. Essa brevidade é o grande charme do título, pois não há enrolação ou capítulos longos só para fazer volume.

Claro que precisamos ser justos e colocar os pingos nos is. Vasculhando fóruns no Goodreads e avaliações de leitores mais céticos, fica bem claro que a obra divide opiniões. Algumas pessoas apontam certas falhas narrativas, e eu tendo a concordar em parte com elas. Os personagens de apoio são um tanto rasos. Eles parecem funcionar muito mais como alto-falantes para as teorias do autor do que como pessoas reais lidando com conflitos profundos. Além disso, o tom da história soa perfeito demais em certos trechos. É aquela velha utopia reconfortante onde tudo se resolve com um bate-papo amigável. Leitores que procuram um mergulho literário complexo podem achar o texto superficial.

No entanto, focar exclusivamente nesses defeitos literários é ignorar o propósito central do livro. A ausência de tramas mirabolantes é exatamente o que faz a engrenagem funcionar tão bem. Strelecky não quer te entregar um manual cheio de regras inquebráveis ou respostas prontas mastigadas. Ele faz exatamente o oposto disso. O cara joga perguntas perturbadoras no seu colo e sai de fininho. É como se ele te entregasse a pílula vermelha do universo Matrix e dissesse que agora a escolha é sua. Você acorda para a realidade e enfrenta o desconforto, ou volta a dormir anestesiado no piloto automático? 😉

O conceito do Propósito Final de Existência domina as conversas. Lendo os diálogos, a gente se sente sentado na lanchonete junto com eles, comendo panquecas e tentando decifrar o enigma da própria rotina. O ensinamento da tartaruga marinha verde me marcou bastante. A lição sugere que nós gastamos uma energia absurda remando contra a maré, lutando contra problemas menores que não importam, em vez de aproveitar as ondas favoráveis. É quase um conselho de foco e aceitação que faria inveja ao mestre Yoda da saga Star Wars.

Para a galera que sente estar vivendo a vida no modo de espera, eu recomendo demais essa leitura. O livro não vai pagar os seus impostos, nem magicamente colocar a sua rotina nos eixos. Contudo, é muito provável que ele te devolva as perguntas certas. Aquelas dúvidas essenciais que a gente sempre tenta abafar ligando a televisão.

Se você quer dar uma pausa na loucura diária para realinhar a bússola interna, pode adquirir o seu exemplar sem medo algum.

Referências:

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