A Máquina de Desejos Nunca Para

Muito antes dos games e do cinema, a busca por conexão e prazer já ditava as regras da inovação.

Close-up de um par de algemas de metal sobre uma superfície escura, dramaticamente iluminadas por uma luz que transita entre o vermelho e o azul.

A tecnologia, como as algemas, pode ser uma ferramenta de libertação ou aprisionamento dos nossos desejos. Foto: Oleksandr / Adobe Stock.

O bicho-homem é uma criatura previsível. Dê a ele fogo, e ele fará churrasco. Dê a ele uma roda, e ele atropelará alguma coisa. E dê a ele uma nova tecnologia… ah, meu caro leitor, você sabe muito bem o que ele fará primeiro. É quase um reflexo. Antes do manual de instruções, antes do “olá, mundo”, vem o desejo. Sempre ele.

A conversa de que a indústria pornô é a grande madrinha da tecnologia já é mais velha que muito uísque por aí. E é verdade, em parte. Os engravatados do Vale do Silício odeiam admitir, mas a tal “guerra dos formatos” dos anos 80, entre VHS e Betamax, foi decidida nos quartos escuros e nas locadoras de filmes adultos. O VHS era mais barato, cabia mais safadeza e pronto. Fim de papo. O mercado falou, ou melhor, gemeu. Depois veio a internet. Quem você acha que testou os limites dos pagamentos com cartão de crédito online? Quem fez o streaming de vídeo valer a pena quando a conexão discada ainda gritava como uma alma penada? Pois é.

Mas aqui está o pulo do gato, a verdade que ninguém coloca na mesa do bar: a indústria é só um sintoma. Um aproveitador. Se amanhã todos os estúdios adultos fechassem as portas e virassem mosteiros, você acha que a coisa pararia? Ingenuidade. A tecnologia, na sua essência, é uma ferramenta de intimidade. Hum… talvez de solidão também. O ser humano, essa criaturinha carente e cheia de impulsos, sempre usará a última geringonça para se conectar, para se exibir, para saciar a própria fome. O daguerreótipo mal tinha esfriado e já circulavam retratos “artísticos”. O Kinema­scope mal piscava e já exibia dançarinas com menos roupa do que o bom senso permitia.

Pense nas cartas de amor picantes trocadas secretamente há séculos. Nas fotos Polaroid que revelavam instantes de intimidade e eram guardadas a sete chaves. Nos primeiros bate-papos da internet, onde pseudônimos permitiam explorar fantasias. Hoje, temos o sexting, os nudes trocados por consentimento, os áudios que arrepiam a espinha…

O Futuro do Toque é Digital?

Agora, o jogo ficou mais esquisito. Realidade Virtual, Inteligência Artificial… não estamos mais falando de uma fita de vídeo. Estamos falando de criar fantasmas sob medida. Mundos perfeitos, parceiros que não discutem, não têm dores de cabeça, não te decepcionam. Brinquedos sexuais conectados à internet permitem que a distância física seja (quase) superada pelo toque digital. Parece que estamos caminhando para um futuro onde a tecnologia não será apenas um meio para ver ou ler, mas para sentir e interagir. É uma descrição precisa, quase cirúrgica, da aniquilação da realidade. É a tecnologia não apenas servindo ao desejo, mas o reescrevendo. E a gente, bom, a gente continua lá, apertando os botões, famintos. Sempre famintos. Não é curioso? A ferramenta muda, a intenção permanece. A tecnologia, nesse cenário, não é a criadora do desejo, mas sim o pincel que usamos para colorir nossas vontades com as cores da nossa época.

No fim das contas, essa busca é a história mais antiga da humanidade, apenas contada com um roteiro cada vez mais moderno. A máquina mais avançada do mundo ainda é só um espelho para o nosso macaco interior. E ele parece gostar do que vê. 😉

Referências:

Imagem:

  • Oleksandr / Adobe Stock.
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