As Histórias que os Pontos nos Roubam

Aquela sensação de ouvir uma conversa no ônibus e nunca saber o final.

VLT no Rio de Janeiro com anúncio da série The Boys, enquanto pessoas caminham pela calçada em um fim de tarde, representando o palco de histórias do cotidiano.

O transporte público é um palco de histórias anônimas que se cruzam e se perdem a cada parada. Foto: Arquivo Pessoal.

Confesso que tenho um vício meio esquisito, talvez você também tenha (Quando souberem o que é vão perguntar: quem não tem?). Não é nada ilegal, nem imoral, mas carrega uma ponta de indiscrição. Eu gosto de ouvir. Não no sentido de ser um bom ouvinte para um amigo que desabafa, mas no sentido mais cru da palavra: eu me pego, quase que por instinto, prestando atenção nas narrativas e conversas alheias.

Acontece principalmente no transporte público. O metrô, para mim, é uma espécie de confessionário em movimento, um bunker de metal onde as vidas se cruzam por alguns minutos e os filtros sociais parecem ficar mais frouxos. É o palco perfeito para o meu vício.

E hoje aconteceu de novo.

Duas mulheres, sentadas ao meu lado. Uma, mais velha, tinha a voz embargada. A outra, mais nova, segurava sua mão. A conversa já tinha começado quando meu cérebro decidiu sintonizar na frequência delas. A mais nova dizia:

“…mas você não pode deixar ele fazer isso de novo. É a terceira vez, mãe. A terceira.”

O silêncio que se seguiu foi pesado, denso. A mãe apenas olhava pela janela, para o túnel lá fora, o reflexo mostrando um rosto cansado, marcado por batalhas que eu jamais conheceria. O que ele tinha feito? Quem era “ele”? Um marido, um filho, um genro? A curiosidade me corroeu por dentro, como um ácido. Eu precisava saber o fim daquela história.

Mas o fim nunca veio.

A mulher mais nova se levantou, deu um beijo na testa da mãe e disse

“Me liga quando chegar”.

E desceu. O metrô deu o sinal e fechou as portas,  arrancou, levando a mãe e seu silêncio para longe, e me deixando com um roteiro pela metade.

A sensação que ficou foi exatamente essa: a de ser um leitor que encontrou apenas uma página de um livro fascinante no meio da rua. Você tem os personagens, um vislumbre do conflito, a tensão no ar, mas não tem a porra do contexto. Não sabe o que veio antes nem o que virá depois. É como assistir a um único episódio de uma série complexa, tipo Dark, no meio da terceira temporada. Você capta a emoção, a urgência, mas as peças do quebra-cabeça são um borrão sem sentido.

Isso é particularmante interessante para mim, pois sou ghostwriter, e as vezes arranho alguns contos, principalmente no canal de meu alterego “Robert – o amante de Whisky”, e algumas vezes servem de inspiração para o início de uma nova obra.

Nesses momentos eu me pego fazendo o que a gente sempre faz: tentando preencher as lacunas. Na minha cabeça, eu criei o antes e o depois. Imaginei o tal “ele”, construí um histórico de abusos, elaborei um desfecho onde a mãe finalmente encontrava forças para dar um basta. Por alguns quarteirões, eu fui o roteirista da vida daquelas duas estranhas.

Será que isso é uma invasão de privacidade mental? Talvez. Mas acho que é algo mais profundo. É o reconhecimento de que o mundo é um emaranhado de narrativas complexas e febris acontecendo simultaneamente. Cada pessoa que passa por nós na rua é o protagonista de um filme que está em cartaz apenas na sua própria mente.

Cada ser humano, do bilionário ao morador de rua é um universo próprio, com centenas de histórias para nos contar.

E, de vez em quando, a gente consegue uma espiada, um trailer de 30 segundos de uma superprodução que nunca vamos assistir.

Esses fragmentos de histórias que o ponto nos rouba são um lembrete fodido da nossa pequenez e, ao mesmo tempo, da imensidão da experiência humana. Não saber o fim da história daquelas mulheres não é o problema. A verdadeira questão é a beleza e a agonia de saber que aquela história existe, e que ela continuou, mesmo depois que eu desci e segui com a minha. E que existem milhões de outras, naquele exato momento, tendo seu clímax, sua virada ou seu final melancólico no banco de um metrô em algum lugar do mundo. 😉


Referências:

Imagem:

  • Arquivo pessoal.
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