Fala, pessoal! Senta aqui, pega um café (ou acende um bom charuto, dependendo do seu dia) porque a conversa hoje é daquelas que exigem um pouco mais de estômago.
Algumas noites atrás, enquanto eu puxava a fumaça de um tabaco nacional na varanda aqui no Rio de Janeiro, conversava com um conhecido sobre um novo projeto que estou estruturando. É um desafio absurdo e, ao mesmo tempo, a realização de um objetivo antigo que me tira o sono de um jeito bom. Ele me ouviu com atenção e soltou:
“Cara, você é audacioso demais”.
Dei risada, apertei a mão dele e apenas concordei.
Enquanto a fumaça se dissipava, fiquei pensando sobre o homem que me tornei ao longo dos anos. A gente tem a mania de achar que a vida é uma evolução natural, mas, na real, é pura construção e escolha diária. Chegamos a uma idade que já dá para afirmar com categoria que, se você não escolhe ativamente todos os dias quem vai ser, o mundo escolhe por você. E, acredite, o que o mundo quer para nós não é grande coisa.
O Sistema Quer Você Anestesiado
O mundo moderno nos quer anestesiados, complacentes e com muito medo. Um sistema que detesta o indivíduo forte e que, no fundo, parece odiar a vitalidade.
Vivemos em uma época que faz de tudo para que a gente baixe a cabeça, se sinta culpado por ter ambição e gaste energia com futilidades. Querem que você seja um mero consumidor de telas brilhantes. E, ainda assim, no meio dessa engrenagem toda, a gente precisa dar um jeito de florescer e criar casca.
Dias atrás, prestes a iniciar uma etapa complicada de um projeto pessoal (e confesso, com aquele frio na barriga inevitável), lembrei de algo essencial. Pensa no quanto o moleque que sobreviveu ao mundo analógico lá dos anos 80 ficaria orgulhoso do cara que você é hoje. Talvez esse seja o nosso mais sincero sinal de sucesso.
Quando eu olho para o retrovisor, vejo os medos que tive, os momentos em que achei que a infraestrutura ia cair ou que eu ia falhar miseravelmente. Consigo enxergar que precisei tomar decisões difíceis e seguir marchando, mesmo sem saber onde o caminho ia dar. Abdicar do poder de escolha é simplesmente abrir mão de si mesmo. O que esperam de nós é muito menos do que somos capazes de entregar.
A Lição de “Pobres Criaturas”
A vida é sobre como você enxerga as coisas e como reage a elas. Outro dia, parei para rever um do filme curioso, do diretor grego surtado Yorgos Lanthimos, Pobres Criaturas. A personagem principal expõe no filme os seus desejos e sua visão de mundo com uma convicção inabalável.
As pessoas que cruzam o caminho dela tentam, cada um à sua maneira, moldá-la. Um deles fica fascinado pela liberdade dela, mas entra em colapso quando percebe que não pode controlá-la. Outro é um cínico que prefere criar muros ao invés de lidar com as contradições do mundo. Existe ali uma metáfora pesada sobre controle e sobre como a sociedade tenta engessar quem ousa viver de forma impetuosa.
Mas das muitas reflexões que o filme traz, tem uma frase específica que bate forte e que resume perfeitamente a mentalidade de quem recusa a mediocridade:
“Precisamos trabalhar. Precisamos ganhar dinheiro. Mas, mais do que isso, precisamos experimentar tudo. Não apenas o bom, mas também a degradação, o horror, a tristeza. Isso nos torna pessoas de substância. Não crianças volúveis e intocadas. Então poderemos conhecer o mundo. E quando conhecermos o mundo, o mundo será nosso.”
Coloque a Pele em Jogo
Nos últimos anos, deixei de lado qualquer expectativa que não fosse a de viver plenamente a experiência de estar aqui. Entendi que focar demais em agradar os outros ou seguir a cartilha cria um funil que deixa de fora tudo o que alimenta a nossa paixão pela vida.
Quanto mais a gente vive, mais a gente descobre sobre si mesmo. Só que essas experiências não são sempre agradáveis ou limpinhas. Muitas vezes o treino é pesado, a realidade é feia e a carga exige esforço bruto. Não dá para querer que tudo permaneça no conforto da nossa compreensão.
Viver através de telas e de conselhos rasos na internet de gente que só leu a orelha do livro não vai te ensinar nada de verdade. Ficar sentado no sofá com o smartphone na mão não vai forjar seu caráter. A alienação protege você do que é ruim, mas também te blinda do que é bom. Na vida real não tem anestesia, e é só assim que a gente muda. Na pele. Criando memória.
Tome uma decisão. Mude de ideia se for preciso. Mas se movimente. Experimente tudo. Coloque seu corpo e sua mente no mundo real e perceba como reagem. Vai ser bom, vai ser ruim e, principalmente, vai valer a pena.
Continue marchando.
Referências:
-
Filme Pobres Criaturas (Poor Things, 2023): Direção de Yorgos Lanthimos. Análise sobre existencialismo e o comportamento humano diante do controle e da liberdade.
-
O Valor da Experiência e Antifragilidade: Reflexões baseadas no conceito de crescer sob pressão e a importância do desconforto para o desenvolvimento humano.
