No Topo da Pirâmide: Quando sua Espiritualidade não Cabe em Nenhuma Caixa

Encontrando Propósito no Topo da Pirâmide de Maslow, Longe de Dogmas.

Mãos unidas em gesto de propósito, com relógio e anel.

Um gesto de união e força, representando a construção de um propósito individual. (Imagem: Arquivo Pessoal)

Para meus amigos mais próximos, sou um ponto de interrogação ambulante, especialmente no que diz respeito à religiosidade. Essa tem sido a minha realidade há um bom tempo. Para eles vivo em uma espécie de limbo ideológico: as pessoas religiosas me olham com a certeza de que sou ateu, enquanto os ateus e agnósticos juram que sou um dos religiosos mais fervorosos que já conheceram. E o motivo dessa confusão toda? Minha bússola interna não aponta nem para o céu das religiões, nem para o vácuo do ceticismo. Ela aponta para o topo da Pirâmide de Maslow.

Deixa eu explicar. Minha relação com ritos litúrgicos é praticamente zero. Não me entenda mal, eu respeito profundamente a fé alheia, as catedrais, os templos, as rezas e os rituais. Acho tudo fascinante do ponto de vista antropológico e histórico. Mas participar? Simplesmente não ressoa em mim. Não sinto a conexão que tantos sentem ao seguir uma doutrina específica. Para os meus amigos que seguem uma religião, essa minha falta de entrosamento é um sinal claro:

“Ele não acredita em nada”.

E, na perspectiva deles, talvez eu não acredite mesmo… pelo menos não da forma como eles foram ensinados a acreditar.

Aí vem o outro lado da moeda. Quando converso com amigos céticos, a coisa muda de figura. Eles me veem praticando o que chamo de

“Uma disciplina extrema com os níveis superiores da pirâmide de Maslow”.

Para quem não lembra das aulas de psicologia, Abraham Maslow criou uma hierarquia de necessidades humanas. A base é o básico: comida, segurança. Mas o topo… ah, o topo é sobre outra coisa. A jornada é sobre autorrealização e, em um patamar superior, autotranscendência.

É nesse pico que eu moro. Isso se traduz em uma busca diária e disciplinada por propósito, vivendo de acordo com um código moral que eu mesmo construí. Trata-se de uma conexão constante com algo maior que o próprio umbigo – seja a arte, a natureza ou o bem-estar coletivo. É uma rotina quase monástica de autodesenvolvimento, de busca por significado em cada ação. E é essa disciplina, essa busca incessante por um sentido maior, que faz meus amigos ateus coçarem a cabeça e dizerem:

“Cara, isso aí que você faz é religião, só não tem um nome”.

No fim das contas, essa minha busca por um código pessoal se ancora em algo muito mais antigo e estruturado: me identifico mais com a filosofia do Estoicismo.

Considero-me um homem estóico, alguém que busca a virtude e a paz interior focando naquilo que posso controlar: minhas próprias reações e julgamentos. Essa disciplina, que tanto confunde os outros, nada mais é do que a prática diária de construir uma fortaleza interna. E é aqui que a coisa fica interessante, pois sou também um entusiasta do Niilismo. A percepção de que a vida pode não ter um sentido intrínseco não me leva ao desespero, mas sim à libertação. Se o universo não me deu um propósito, sinto-me livre para criar o meu.

Assim, talvez os dois lados estejam um pouco certos e errados. Eu não sigo uma religião, mas tenho uma espiritualidade que funciona como espinha dorsal da minha existência, forjada na união da autodisciplina estóica com a liberdade criativa do niilismo. É uma espiritualidade que não precisa de um templo de pedra, porque estou tentando construir um dentro de mim. E talvez esse seja um caminho cada vez mais comum: o de ser o seu próprio guru, navegando entre a fé e o ceticismo com um mapa desenhado por você mesmo. É um lugar solitário, às vezes. Mas a vista aqui do topo da pirâmide, meus amigos, faz tudo valer a pena.


Referências:

  • Maslow’s Hierarchy of Needs: McLeod, S. (2024). Maslow’s Hierarchy of Needs. Simply Psychology. Disponível em: https://www.simplypsychology.org/maslow.html
  • The Farther Reaches of Human Nature: Maslow, A. H. (1971). The Farther Reaches of Human Nature. Penguin Books.
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