O Colapso do Pacto Civilizatório: Sobrevivendo ao Transporte Público e ao Fim do Bom Senso

Uma experiência antropológica (e bizarra) sobre a falta de bom senso e a epidemia de pessoas sem fone de ouvido nos ônibus.

Ônibus antigo da Transportes Paranapuan, linha 911 Bonsucesso x Cidade Universitária, em alta resolução.

Registro nostálgico do clássico ônibus da Paranapuan na linha 911 (Bonsucesso / Cidade Universitária).

Você já teve a sensação de acordar em uma realidade paralela? Pois foi exatamente assim que me senti…

Esses dias, decidi dar uma de explorador urbano: peguei um ônibus do transporte público aqui no Rio de Janeiro pela primeira vez em uns quatro anos.

A ideia original era fazer uma espécie de experiência antropológica, sabe? Observar a cidade de outro ângulo. Só que, de cara, já fiquei completamente enrolado com a logística básica.

As regras de pagamento mudaram tanto que me senti tentando desarmar uma bomba em Missão Impossível. Que cartão passa onde? Qual é a integração da vez? Acho que o bom e velho dinheiro de papel virou peça de museu, porque a cara que o motorista fez para mim sugeriu que eu estava tentando pagar a passagem com escambo de galinhas (os ônibus daqui não aceitam mais dinheiro, apenas um cartão problemático gerido pela prefeitura). Mas, sendo bem sincero, o choque tecnológico foi o menor dos meus problemas nessa jornada. O que me deixou genuinamente perplexo foi o fator humano.

Observando o ambiente ao meu redor, ficou claro que uma parcela significativa da população simplesmente rompeu com o pacto civilizatório. Sabe aquele acordo não escrito de convivência que nos impede de transformar a sociedade em um cenário pós-apocalíptico e egoísta de Mad Max? Pois é, ele parece ter virado poeira. As pessoas agem sem ter a mais ínfima percepção do próximo.

Para quem precisa desse tipo de serviço a coisa ficou tão comum que nem percebem mais o absurdo que estão vivendo:

A normalização da barbárie…

Mas para quem entrou naquele momento, a coisa é escabrosa e evidente!

A primeira coisa que saltou aos olhos — e aos ouvidos — foi a morte trágica e silenciosa do fone de ouvido. É fascinante, de um jeito meio perturbador, ver o ônibus cheio de gente exausta, tentando pescar um cochilo depois de um dia duro, enquanto um cidadão assiste a vídeos no celular como se estivesse jogado no sofá de casa. É meme solto misturado com áudio de grupo vazando alto, tudo ao mesmo tempo. É como se vivessem numa bolha invisível onde o resto do mundo foi simplesmente silenciado na configuração mental deles.

E o pior é que isso não é exclusividade do transporte coletivo. Outro dia, durante o que deveria ser um café da manhã tranquilo em um hotel, presenciei uma cena surreal. Alguém estava acompanhando uma novela online no último volume. O cheirinho de café fresco e pão de queijo precisou competir arduamente com o drama passional e os gritos de traição em Istambul, logo às oito da manhã. Parece que o Thanos estalou os dedos e, em vez de apagar metade do universo, deletou 50% do nosso bom senso. 😉

Segredos no Viva-Voz e Outros Horrores Cotidianos

Mas a coroa de espinhos da inconveniência vai, sem sombra de dúvida, para a galera da chamada no viva-voz. Voltando ao meu safári no ônibus, me deparei com pessoas que atendiam ligações aos berros, expondo os detalhes mais íntimos e sórdidos de suas vidas. E a cereja do bolo: Fazia questão de xingar um desafeto em comum para uma plateia de estranhos que só queria chegar viva em casa. É um ato hediondo. Você é forçado a ser coadjuvante de um episódio de Black Mirror da vida real, preso em um reality show que ninguém ali pediu para assinar.

A coisa chegou a um ponto de degradação tão bizarro que já ouvi relatos de pessoas assistindo a vídeos pornográficos explícitos em salas de espera lotadas de consultórios médicos. Sem o menor pudor ou constrangimento. A humanidade parece ter acionado o modo The Purge (Uma Noite de Crime) da etiqueta básica: durante o dia, vale tudo.

Para Onde Vamos?

Fica a reflexão: como normalizamos tamanho absurdo? É possível que o nosso vício crônico em telas tenha corroído a empatia espacial a esse ponto? Especialistas em comportamento sugerem que a chamada “Síndrome do Personagem Principal” — um fenômeno onde o indivíduo se vê como o único protagonista da realidade e trata os outros como meros figurantes — tem muita responsabilidade nisso.

Nos meus tempos de faculdade chamávamos isso de “solipsismo”

A hiperconexão digital ironicamente nos desconectou, de forma brutal, do ambiente físico.

Da próxima vez que eu resolver me aventurar nessa selva de metal sobre rodas, já sei que vou precisar de um kit de sobrevivência. Não contra zumbis ou ameaças alienígenas de Um Lugar Silencioso, mas algo bem mais mundano: um bom par de fones com cancelamento ativo de ruído e uma dose extra de paciência zen. Afinal, para sobreviver às ruínas do pacto civilizatório, um pouco de isolamento voluntário parece ser o único remédio eficaz.

Referências:

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