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Início Reflexões

Quando a “modernização” destrói o que a gente ama: a crise das grandes franquias

o sucesso ou o fracasso de uma franquia hoje em dia está diretamente ligado ao respeito que ela demonstra por sua própria história e por seus fãs mais dedicados.

7 de agosto de 2025
Em Reflexões
Tempo de leitura:  6 minutos de leitura
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Montagem com pôsteres das séries Anéis de Poder e Sandman, uma arte do He-Man e o cartaz do filme Barbie, para ilustrar a discussão sobre modernização de franquias.

Pôsteres de 'Anéis de Poder', 'Sandman', 'He-Man' e 'Barbie' lado a lado, representando os diferentes resultados da modernização de franquias na cultura pop. Fonte: Divulgação / Montagem.

PATROCINADOR

Sabe, esses dias eu estava navegando pela internet e me deparei com um artigo na Forbes que me deixou pensativo. O texto, do Erik Kain, falava sobre os números decepcionantes da segunda temporada de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder” e, lendo aquilo, uma chavinha virou na minha cabeça. Não era só sobre a série da Amazon, mas sobre um padrão que parece se repetir em Hollywood, quase como um roteiro de filme de terror para fãs.

A sensação que fica é a de que a indústria do entretenimento está perdida. Ela tem em mãos verdadeiras minas de ouro — franquias que atravessaram gerações — e, mesmo assim, parece fazer de tudo para afastar justamente quem mais se importa com elas: o público fiel.

Os Números Não Mentem: A Prova do Crime

 

A prova mais recente disso veio com o relatório de streaming da Luminate Data para 2024. A lista dos 10 programas mais assistidos é dominada pela Netflix, com 7 de 10 programas fazendo a lista. Taylor Sheridan conquistou o segundo lugar com dois de seus shows na lista. A única série que não era uma produção de Sheridan ou na Netflix foi Fallout no Prime Video:

  1. Fool Me Once (Netflix) — 12.11 bilhões de minutos
  2. Bridgerton (Netflix) — 11.07 bilhões de minutos
  3. Landman (Paramount+) — 9.9 bilhões de minutos
  4. O Casal Perfeito (Netflix) — 8.83 bilhões de minutos
  5. Tulsa King (Paramount+) – 8.47 bilhões de minutos
  6. Monsters: The Lyle and Eric Menendez Story (Netflix) — 8,16 bilhões de minutos
  7. Os Senhores (Netflix) — 8.06 bilhões de minutos
  8. Fallout (Prime Video) — 7.95 bilhões de minutos
  9. Griselda (Netflix) — 7.95 bilhões de minutos
  10. Love Is Blind (Netflix) — 7.38 bilhões de minutos

O que realmente choca, no entanto, é a ausência de duas produções gigantescas e caríssimas: “Os Anéis de Poder” (Prime Video) e “Star Wars: O Acólito” (Disney+). De fato, nenhuma produção da Disney entrou na lista. A principal oferta da Disney+ foi Percy Jackson e os atletas olímpicos, que chegaram a cerca de 3 bilhões de minutos, com The Acolyte perdendo em segundo lugar, com pouco menos de 2,7 bilhões de minutos vistos. O caso de “Anéis de Poder” é ainda mais grave: uma queda de brutais 60% em minutos assistidos da primeira para a segunda temporada. Um número que faria qualquer executivo ter calafrios.

 

Anatomia de um Fracasso: O Caso “Anéis de Poder”

 

Mas por que isso acontece? O fracasso da série da Amazon é o resultado natural de uma série de erros crassos:

  • Showrunners Inexperientes: Patrick McKay e J.D. Payne nunca haviam comandado uma produção antes. O artigo da Forbes compara o caso ao de Game of Thrones, cujos criadores também eram novatos em uma produção daquela escala. A comparação, no entanto, não é totalmente justa, e aqui vai um adendo meu: Benioff e Weiss tinham o mapa da mina nas mãos, os livros de George R.R. Martin, que serviram de roteiro para as temporadas de maior sucesso. Tanto que, quando o material dos livros acabou, a dupla se perdeu e entregou duas temporadas medianas que praticamente arruinaram o legado da série.
  • Mudanças Bizarras na História: As alterações em relação ao material original foram, no mínimo, estranhas. A decisão de comprimir a linha do tempo da Segunda Era da Terra-média, que na teoria parecia uma solução prática, acabou tornando a série confusa e desordenada. Para piorar, eventos cruciais, como a forja dos Anéis de Poder, foram apresentados fora da ordem cronológica, o que não ajudou em nada.
  • Qualidade de Roteiro Ruim: A baixa qualidade geral do roteiro era evidente até mesmo para o espectador mais casual. Os episódios estavam repletos de furos na trama, clichês de fantasia e diálogos pobres.
  • O Desprezo pelos Fãs: Fica nítida a sensação de que a série tentava a todo custo agradar um vago “público moderno”, do qual tanto ouvimos falar, mas com pouquíssima consideração pelos fãs mais apaixonados de Tolkien. Criar uma adaptação da obra dele sem cativar sua base de fãs já estabelecida é uma decisão desconcertante. Vimos essa mesma tendência estranha em várias outras propriedades intelectuais, de Star Wars à Marvel. O novo público não é conquistado e o antigo abandona o barco. No fim, ninguém sai ganhando.

A essa altura, não está claro como a Amazon poderá juntar os cacos. Com duas temporadas já lançadas, a narrativa e suas muitas falhas foram longe demais para serem salvas. A não ser que optem por um reboot completo, começando do zero com roteiristas e showrunners mais competentes, mas infelizmente é certo de que a terceira temporada apenas continue nessa espiral descendente.

 

A receita do fracasso: ignorando a essência

 

O que aconteceu com “Os Anéis de Poder” é um exemplo quase didático, e essa “estratégia” se espalhou como uma praga. Vimos isso acontecer com He-Man na Netflix, com Branca de Neve da Dinsey, com Star Wars em “O Acólito” e até com a adaptação de Sandman, que, apesar de ter seus méritos, também gerou discussões que ofuscaram a obra. A lógica parece ser sempre a mesma: dar liberdade criativa total para produtores que, muitas vezes, querem mais deixar a sua “marca” pessoal do que honrar o legado que têm em mãos.

O novo público não vem, e o antigo vai embora

 

A frase de Erik Kain que mais me marcou foi exatamente esta:

“The new audience doesn’t show up and the old audience checks out. Nobody wins.”

(O novo público não aparece e o público antigo vai embora. Ninguém ganha).

Ela resume perfeitamente a situação.

Os estúdios criam um produto descaracterizado, que não agrada aos fãs de longa data porque não tem a essência que eles amavam. E também não consegue atrair um novo público, porque falta uma base sólida, uma identidade. O resultado é um limbo: produções caríssimas que geram polêmicas vazias, discussões políticas e, alguns meses depois, são completamente esquecidas. Sem bonecos nas prateleiras, sem hype, sem legado.

É o oposto do que vimos em sucessos como “Barbie” ou “Top Gun: Maverick“. Esses filmes entenderam a tarefa. “Maverick” foi como encontrar um amigo de 30 anos atrás e perceber que, apesar de mais velho, ele ainda tem o mesmo espírito aventureiro. Respeitou o original, mas contou uma nova história. “Barbie” desconstruiu o mito, mas fez isso com inteligência e, acima de tudo, com carinho pela personagem. Eles entenderam a essência antes de tentar “modernizar”.

No fim, fico com essa pulga atrás da orelha. Será que os executivos não percebem que essa busca incessante pelo “novo” está apenas destruindo o valor do que eles já possuem? A gente só queria continuar amando as histórias que nos formaram, mas, às vezes, parece que eles estão fazendo de tudo para que a gente desista. E isso, para quem é fã, é a coisa mais frustrante que existe. ?

Referências:

  • Kain, E. (2024). Bad News For ‘The Rings Of Power’ After Disastrous Season 2. Forbes. 
  • Análise da Discrepância em “O Acólito”: Este artigo do Screen Rant discute como a pontuação do público para “O Acólito” foi drasticamente baixa em comparação com a dos críticos, um sintoma clássico do divórcio entre a visão dos produtores e a expectativa dos fãs.
  • A Controvérsia de “Mestres do Universo”: Uma matéria que explica a reação negativa de parte do público à série “Mestres do Universo: Revelação”, da Netflix, que se sentiu enganado pelo marketing e pelas mudanças no protagonismo da história.
  • O Sucesso de “Top Gun: Maverick”: Um artigo da Variety que analisa como “Maverick” se tornou um sucesso estrondoso justamente por focar na nostalgia e entregar uma experiência que honrava o filme original, servindo como um contraponto perfeito à nossa discussão.
  • O Fenômeno Cultural de “Barbie”: A Time Magazine explora como o filme da “Barbie” conseguiu ser um sucesso de crítica e público ao abraçar a complexidade da marca, em vez de simplesmente descartar seu passado, mostrando como inovar com respeito.

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Robert Gleydson

Robert Gleydson

Bem-vindo(a)! Sou Gleydson, e minha carreira se move na interseção entre a tecnologia, a arte e a comunicação. Como desenvolvedor de software e publicitário pós-graduado, meu foco é construir projetos que sejam não apenas funcionais, mas também criativos e esteticamente atraentes. ?

Sou um aficionado por fotografia, filmagem e por contar histórias, seja através de linhas de código ou de um texto bem escrito. Nas horas vagas, um bom filme, um livro interessante acompanhado de um ótimo café ☕ ou uma conversa inspiradora me recarregam.

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