Quando a “modernização” destrói o que a gente ama: a crise das grandes franquias

o sucesso ou o fracasso de uma franquia hoje em dia está diretamente ligado ao respeito que ela demonstra por sua própria história e por seus fãs mais dedicados.

Montagem com pôsteres das séries Anéis de Poder e Sandman, uma arte do He-Man e o cartaz do filme Barbie, para ilustrar a discussão sobre modernização de franquias.

Pôsteres de 'Anéis de Poder', 'Sandman', 'He-Man' e 'Barbie' lado a lado, representando os diferentes resultados da modernização de franquias na cultura pop. Fonte: Divulgação / Montagem.

Sabe, esses dias eu estava navegando pela internet e me deparei com um artigo na Forbes que me deixou pensativo. O texto, do Erik Kain, falava sobre os números decepcionantes da segunda temporada de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder” e, lendo aquilo, uma chavinha virou na minha cabeça. Não era só sobre a série da Amazon, mas sobre um padrão que parece se repetir em Hollywood, quase como um roteiro de filme de terror para fãs.

A sensação que fica é a de que a indústria do entretenimento está perdida. Ela tem em mãos verdadeiras minas de ouro — franquias que atravessaram gerações — e, mesmo assim, parece fazer de tudo para afastar justamente quem mais se importa com elas: o público fiel.

Os Números Não Mentem: A Prova do Crime

 

A prova mais recente disso veio com o relatório de streaming da Luminate Data para 2024. A lista dos 10 programas mais assistidos é dominada pela Netflix, com 7 de 10 programas fazendo a lista. Taylor Sheridan conquistou o segundo lugar com dois de seus shows na lista. A única série que não era uma produção de Sheridan ou na Netflix foi Fallout no Prime Video:

  1. Fool Me Once (Netflix) — 12.11 bilhões de minutos
  2. Bridgerton (Netflix) — 11.07 bilhões de minutos
  3. Landman (Paramount+) — 9.9 bilhões de minutos
  4. O Casal Perfeito (Netflix) — 8.83 bilhões de minutos
  5. Tulsa King (Paramount+) – 8.47 bilhões de minutos
  6. Monsters: The Lyle and Eric Menendez Story (Netflix) — 8,16 bilhões de minutos
  7. Os Senhores (Netflix) — 8.06 bilhões de minutos
  8. Fallout (Prime Video) — 7.95 bilhões de minutos
  9. Griselda (Netflix) — 7.95 bilhões de minutos
  10. Love Is Blind (Netflix) — 7.38 bilhões de minutos

O que realmente choca, no entanto, é a ausência de duas produções gigantescas e caríssimas: “Os Anéis de Poder” (Prime Video) e “Star Wars: O Acólito” (Disney+). De fato, nenhuma produção da Disney entrou na lista. A principal oferta da Disney+ foi Percy Jackson e os atletas olímpicos, que chegaram a cerca de 3 bilhões de minutos, com The Acolyte perdendo em segundo lugar, com pouco menos de 2,7 bilhões de minutos vistos. O caso de “Anéis de Poder” é ainda mais grave: uma queda de brutais 60% em minutos assistidos da primeira para a segunda temporada. Um número que faria qualquer executivo ter calafrios.

 

Anatomia de um Fracasso: O Caso “Anéis de Poder”

 

Mas por que isso acontece? O fracasso da série da Amazon é o resultado natural de uma série de erros crassos:

A essa altura, não está claro como a Amazon poderá juntar os cacos. Com duas temporadas já lançadas, a narrativa e suas muitas falhas foram longe demais para serem salvas. A não ser que optem por um reboot completo, começando do zero com roteiristas e showrunners mais competentes, mas infelizmente é certo de que a terceira temporada apenas continue nessa espiral descendente.

 

A receita do fracasso: ignorando a essência

 

O que aconteceu com “Os Anéis de Poder” é um exemplo quase didático, e essa “estratégia” se espalhou como uma praga. Vimos isso acontecer com He-Man na Netflix, com Branca de Neve da Dinsey, com Star Wars em “O Acólito” e até com a adaptação de Sandman, que, apesar de ter seus méritos, também gerou discussões que ofuscaram a obra. A lógica parece ser sempre a mesma: dar liberdade criativa total para produtores que, muitas vezes, querem mais deixar a sua “marca” pessoal do que honrar o legado que têm em mãos.

O novo público não vem, e o antigo vai embora

 

A frase de Erik Kain que mais me marcou foi exatamente esta:

“The new audience doesn’t show up and the old audience checks out. Nobody wins.”

(O novo público não aparece e o público antigo vai embora. Ninguém ganha).

Ela resume perfeitamente a situação.

Os estúdios criam um produto descaracterizado, que não agrada aos fãs de longa data porque não tem a essência que eles amavam. E também não consegue atrair um novo público, porque falta uma base sólida, uma identidade. O resultado é um limbo: produções caríssimas que geram polêmicas vazias, discussões políticas e, alguns meses depois, são completamente esquecidas. Sem bonecos nas prateleiras, sem hype, sem legado.

É o oposto do que vimos em sucessos como “Barbie” ou “Top Gun: Maverick“. Esses filmes entenderam a tarefa. “Maverick” foi como encontrar um amigo de 30 anos atrás e perceber que, apesar de mais velho, ele ainda tem o mesmo espírito aventureiro. Respeitou o original, mas contou uma nova história. “Barbie” desconstruiu o mito, mas fez isso com inteligência e, acima de tudo, com carinho pela personagem. Eles entenderam a essência antes de tentar “modernizar”.

No fim, fico com essa pulga atrás da orelha. Será que os executivos não percebem que essa busca incessante pelo “novo” está apenas destruindo o valor do que eles já possuem? A gente só queria continuar amando as histórias que nos formaram, mas, às vezes, parece que eles estão fazendo de tudo para que a gente desista. E isso, para quem é fã, é a coisa mais frustrante que existe. ?

Referências:

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