Quem acompanha o blog sabe que eu sou quase um espécime raro de super-humano quando o assunto é saúde. Doença? Raramente sei o que é isso. Meu corpo costuma ser um tanque de guerra. Mas, recentemente, meu estômago resolveu decretar greve geral. Passei tão mal que, em um ato de puro desespero e prudência adulta, fiz algo inédito: marquei uma consulta médica.
Só tinha vaga para dali a cinco dias. Pensei:
“Beleza, aguentamos firme.”
O problema é que o corpo humano adora uma ironia. No terceiro dia após o agendamento, eu já estava ótimo, pronto para encarar um rodízio. No quarto dia, veio o plot twist:
descobri que uma galera que frequentou o mesmo lugar que eu também tinha passado mal. O culpado? A água de lá. Mistério resolvido, estômago recuperado, o bom senso dizia:
“Cancela o médico”.
Mas eu sou teimoso (e já estava tudo agendado mesmo), então decidi ir assim mesmo.
Chegando lá, o médico me examinou, viu que eu exalava saúde e comentou:
– Olha, você está ótimo. Mas, só para desencargo de consciência e verificar se não houve nada mais grave, o que você acha de fazermos uma endoscopia?
Minha reação imediata, baseada em todo o meu histórico de autopreservação, deveria ter sido um sonoro
Deus me livre.
Eu já tinha recusado esse exame antes por achar perigoso e invasivo. Só que, de repente, me bateu uma daquelas curiosidades antropológicas irresistíveis. O motivo?
Eu nunca tinha tomado anestesia geral na vida.
Sempre ouvi as pessoas descreverem a sedação com um tom quase místico, digno de filme de ficção científica. Diziam:
– Cara, é bizarro. Você toma o medicamento na veia, fecha o olho e, no milissegundo seguinte, abre já na sala de recuperação. O tempo simplesmente deixa de existir. Não tem sonho, não tem transição, o tempo passa no modo automático.
Fiquei fascinado com a ideia dessa viagem temporal. Minha curiosidade falou mais alto e eu disse:
– Vamo dale, quero fazer esse exame.
A Viagem no Tempo Subjetiva
Lá estava eu: deitei na maca do equipamento, olhei os aparelhos e o anestesista se aproximou. Ele empurrou o êmbolo da seringa e… pimba.
Fechei o olho. Quando abri, eu já estava tranquilamente sentado em uma cadeira na sala de descanso. Aquelas horas que se passaram simplesmente não existiram para a minha consciência. O tempo não passou devagar; ele foi deletado da minha linha temporal.
Naquele exato momento, me veio uma onda deliciosa de nostalgia da infância. Sabe aquela sensação clássica de quando você era criança, dormia pesado na cadeira da sala assistindo TV e, por pura mágica dos seus pais, acordava misteriosamente coberto na sua cama? Foi exatamente isso. Um teletransporte sensorial perfeito. Eu estava radiante com a experiência, achando tudo o máximo.
Mal sabia eu que o verdadeiro show de comédia estava prestes a começar.
O Despertar do Reptiliano
Eu acordei ali na cadeira de descanso, dei aquela piscada clássica para espantar o restinho de sono e… teletransporte parte dois. Quando abri o olho de verdade, após o que pareceu ser uma piscada de meio segundo, eu já estava dentro do carro!
Olhei para o lado, vi minha acompanhante e fiquei com aquela cara de quem perdeu o início do filme. Ela percebeu o meu choque e começou a relatar os últimos acontecimentos. Foi aí que o meu cérebro deu tela azul.
Segundo ela, nesse meio tempo em que eu achei que estava apenas piscando na cadeira, eu simplesmente:
1. Levantei por conta própria;
2. Desci as escadas do segundo andar do hospital onde estávamos;
3. Caminhei com ela firmemente até um segundo hospital ali perto para levar umas amostras de exames;
4. Voltei andando tranquilamente até o estacionamento;
5. E, para fechar com chave de ouro, ainda me ofereci, todo prestativo, para dirigir o carro até em casa!
Gente, eu não me lembro de absolutamente NADA disso. Zero. Blank.
Foi a primeira vez na vida em que experimentei a sensação real de terceirizar o meu próprio corpo. É como se eu tivesse ativado o modo “piloto automático” e passado o controle da nave diretamente para o meu cérebro reptiliano — aquele pedaço mais primitivo da nossa massa cinzenta que só cuida da sobrevivência básica e dos comandos motores.
A minha grande sorte é que o meu reptiliano se mostrou um cara extremamente responsável e bem-educado. Ainda bem que ele não se empolgou por assumir o controle pela primeira vez na vida; ele não tentou brigar com ninguém, não comprou coisas inúteis na internet, não agarrou ninguém na rua e fez todo o trajeto burocrático como um verdadeiro lorde pré-histórico.
No final das contas, o exame mostrou que está tudo impecável com a minha saúde, ganhei uma das histórias mais bizarras da vida e uma reflexão profunda: a nossa consciência é só a ponta do iceberg. Às vezes, o nosso robô biológico assume a direção e faz o trabalho sujo enquanto a gente tira um cochilo no hiperespaço.
E você que está lendo, já teve o seu momento “modo reptiliano” por causa de anestesia? Muitas pessoas dizem que isso acontece quando você fica extremamente bêbado, mas taí uma coisa que nunca fiz, será que experimento da próxima vez?
Deixa aqui nos comentários o que você aprontou no piloto automático, porque a minha versão anestesiada quase virou motorista de fuga!
Referências:
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Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) – Recomendações Pós-Anestésicas:
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Confirmação: A SBA alerta rigorosamente sobre os efeitos prolongados da sedação e proíbe a condução de veículos nas primeiras 24 horas. Isso corrobora o perigo do seu “modo reptiliano” ter assumido o volante, já que o paciente pode apresentar comportamento motor aparentemente coordenado enquanto está em estado de amnésia anterógrada, sem capacidade real de julgamento.
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Link: https://www.sba.com.br/
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Hospital Israelita Albert Einstein – Orientações para Endoscopia:
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Confirmação: Os protocolos hospitalares de sedação (geralmente com Propofol ou Midazolam) confirmam o relato de “apagão” temporal. A medicação induz um estado onde o cérebro pausa a consolidação de novas memórias, validando a sua experiência de fechar os olhos e “teletransportar-se” para a sala de recuperação sem sonhar ou perceber a passagem das horas.
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Link: https://www.einstein.br/
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SciELO Brasil – Estudos sobre Amnésia Anterógrada em Sedação:
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Confirmação: Diversos artigos médicos detalham o fenômeno neurobiológico descrito no seu texto. A literatura médica comprova que o paciente pode manter funções básicas automáticas (como andar, responder a comandos simples ou vestir-se) sem que a consciência superior registre o evento, explicando perfeitamente o trajeto a pé até o segundo hospital e o retorno ao estacionamento sem nenhuma lembrança do ocorrido.
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Link: https://www.scielo.br/
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