Você já teve a sensação de que, mesmo em silêncio absoluto, tem uma aba do navegador aberta no seu cérebro?
A gente costuma achar que existe uma fronteira clara entre o “mundo real” e o “mundo digital”. Gostamos de acreditar que basta bloquear a tela do celular e colocá-lo no bolso para voltarmos a ser humanos 100% analógicos, focados apenas no cheiro do café ou no barulho da chuva lá fora. Mas, se formos honestos, sabemos que essa separação deixou de existir faz tempo.
A verdade é que nós não “entramos” mais na internet; nós vivemos nela. O mundo físico, aos poucos, foi rebaixado a um simples cenário, um plano de fundo para o que realmente importa: a notificação que acabou de chegar ou a que estamos esperando chegar.
E é aqui que o buraco é mais embaixo: essa hiperconectividade hackeou meu jeito de enxergar o mundo.
Antigamente, eu via uma paisagem foda e absorvia a grandiosidade dela, em silêncio. Hoje? Existe uma urgência latente, quase uma coceira física, de que o celular precisava estar ali interceptando aquele feixe de luz. Mesmo com ele no bolso. Mesmo que eu não tire a maldita foto. Minha retina já aprendeu a recortar a realidade no formato 9:16 dos Stories automaticamente.
Eu fui treinado a ver o mundo não como matéria bruta, mas como ele renderizaria num arquivo de alta definição ou numa thread polêmica.
A tecnologia, meus caros, não é apenas uma ferramenta externa; ela virou uma espécie de prótese fantasma. Sabe aquela sensação descrita por quem perdeu um membro, mas ainda sente ele coçar ou se mover? É exatamente isso. Ela se funde à sua percepção, alterando a frequência com que você respira a realidade. E o mais insano? Ela continua operando em segundo plano, influenciando seus pensamentos mais íntimos, mesmo quando a tela está preta e o aparelho está em outro cômodo.
Talvez a grande batalha do homem moderno não seja apenas construir um império ou meter o shape. A verdadeira guerra é conseguir deixar cair uma xícara de café no chão e ver apenas cacos de cerâmica e sujeira para limpar, e não uma metáfora irônica sobre a “segunda-feira” pronta para viralizar.
