Todo homem, em algum momento da vida, busca aquele cheiro para chamar de seu. O famoso “perfume assinatura”. Vou contar para vocês como eu esbarrei no meu. Mas, calma, não se empolgue muito. Se a gente se cruzar por aí, seja num shopping em Copacabana, num parque ou em alguma festa, muito dificilmente você vai sentir essa fragrância em mim hoje em dia. Depois de décadas de serviço leal, eu finalmente deixei o velhinho descansar.
Estou falando do clássico Dolce & Gabbana Pour Homme, aquele emblemático da tampinha azul. Uma obra-prima que, ironicamente, roubou meu coração na França, mesmo sendo puro sangue italiano. E a história de como ele foi parar na minha prateleira é, no mínimo, inusitada.
Tudo começou numa noite de verão na Champs-Élysées. Estávamos curtindo aquele climazinho frio que só o verão de Paris consegue ter. Eu e meus amigos caminhávamos pela rua, jogando conversa fora, quando demos de cara com uma tropa de escoceses. E olha, não era um grupinho qualquer. Os caras deviam ter de 1,80m para cima — verdadeiros guerreiros saídos diretamente do filme Coração Valente ou de um clã de Highlander. Eles estavam acompanhados de algumas mulheres e ostentavam orgulhosamente o kilt, aquela tradicional saia xadrez que usam em eventos e festas.
Como bons brasileiros, que perdem o amigo mas não perdem a piada, meus colegas começaram a debochar dos caras. Afinal, não estávamos exatamente acostumados a ver homens de saia no meio da rua. Os gringos, que não eram bobos, sacaram rapidamente que éramos brasileiros e que aquilo era pura zoação. A brincadeira virou um duelo de egos, aquela marra para ver quem era mais “peitudo”.
O clima parecia que ia fechar de vez, até que os caras deram uns passos para trás, viraram de costas e, em sincronia perfeita, levantaram os kilts. Homens e mulheres, detalhe! Mostraram tudo para a rua inteira. Foi o quebra-gelo mais bizarro e genial que eu já vi. A risada foi geral, o clima de tensão evaporou e, em meia hora, estávamos todos no Chesterfield — um pub lendário que hoje atende pelo nome de Charles Birdy —, bebendo e conversando como se fôssemos amigos de infância.
Acontece que eu estava com um visual um tanto peculiar naquela noite: bermuda longa, um bom casaco e, coroando a obra, um chapéu de selva do Exército. Sabe aquele modelo que tem a aba presa do lado esquerdo e solta do direito? Pois é. Eu acho que eles nunca tinham visto esse tipo de cobertura, porque a namorada de um dos escoceses gigantes parecia hipnotizada pela peça.
Ela encasquetou que queria o chapéu. Pediu uma vez, eu disse não. Insistiu, e eu avisei para nem tentar. A mulher, obstinada, foi no ouvido do namorado e mandou ele resolver a situação. O cara chegou perto de mim e, arranhando um português de Portugal, berrou para o bar todo ouvir:
“Brasileiro! Eu quero este chapéu!”. Eu, tentando manter a pose, neguei de novo.
Foi cena de filme de faroeste. O bar abriu uma roda no meio, o burburinho cessou e todo mundo parou para ver o que ia acontecer. Até o garçom parou de secar uma taça de cristal para ver o desenrolar da cena. E meus colegas, que não valem o que comem, começaram a colocar lenha na fogueira gritando: “Pega, pega!”. O gigante percebeu que eu não ia recuar tão fácil e lançou o ultimato:
“Eu te desafio a me vencer em alguma coisa por esse chapéu”.
Eu já estava calculando a rota de fuga quando a namorada dele entrou no circuito. Ela chegou, me abraçou e sussurrou no meu ouvido um providencial: “Change”. Apontou para o meu chapéu e, em seguida, para o cachecol escocês belíssimo e espesso que ela usava. Como eu não queria apanhar — e era exatamente o que ia acontecer —, topei na hora. Entreguei meu chapéu para ela e enrolei o cachecol no pescoço.
Terminada a noite, voltamos para o hotel. Mas durante todo o percurso e pelo resto da madrugada, algo não saía da minha cabeça… ou melhor, do meu nariz. Eu fiquei completamente inebriado com o cheiro que exalava daquele cachecol. Era um perfume forte, intenso, amadeirado e — pasmem — extremamente masculino. Não sei se ela gostava de perfumes de homem ou se simplesmente tinha roubado umas borrifadas do cangote do namorado, mas o fato é que ela estava perfeitamente à vontade com aquela fragrância antes da troca.
Nos dias seguintes, aquele cheiro virou uma missão. Antes de deixar Paris, resolvi dar uma volta na Galeries Lafayette para ver se encontrava algo interessante. Fui direto à seção de perfumaria, estendi o cachecol no balcão e pedi para uma das vendedoras identificar a obra de arte. Ela fungou, pensou um pouco, chamou uma colega, debateram em francês e sumiram pelos corredores. Minutos depois, voltaram segurando o frasco do milagroso Dolce & Gabbana.
Comprei na hora para experimentar e levei para o Brasil. Aqui fez um sucesso estrondoso! Como ninguém conhecia na época e o acesso a perfumes que não fossem clássicos franceses era muito difícil, ele reinou absoluto. Se tornou o meu perfume assinatura por muitos e muitos anos.
Com o tempo, inevitavelmente, me apaixonei por outros aromas e o nosso “casamento” se dissolveu. Meu olfato pediu novos ares. Mesmo assim, engana-se quem acha que a chama apagou de vez. Ele ainda mora na minha coleção e o uso de vez em quando. Principalmente naqueles dias em que quero transmitir um ar mais aristocrático, diferenciado e carregar o peso de uma boa história no pescoço. Afinal, um verdadeiro clássico nunca perde a majestade.
Referências:
- Galeries Lafayette Paris Haussmann: Referência mundial no varejo de luxo, a loja de departamentos é conhecida pelo seu massivo e luxuoso setor de perfumaria e beleza, sendo o lugar exato onde turistas vão descobrir e comprar clássicos europeus. Site Oficial
- Dolce & Gabbana Pour Homme (1994): Lançado originalmente em 1994, o perfume é um grande clássico da grife italiana, facilmente reconhecido pela sua icônica tampa azul, o frasco de vidro limpo e robusto. É amplamente celebrado por sua construção aromática, amadeirada e extremamente masculina, unindo notas cítricas com o peso do tabaco, sândalo e lavanda. Dolce&Gabbana Pour Homme Review e Fragrântica – Detalhes das Notas Olfativas
- Chesterfield Café (Paris): A narrativa cita o famoso Chesterfield, que de fato existiu e foi um badalado “pub” e point noturno localizado na região dos Grands Boulevards em Paris (rue Montmartre), famoso por ser um local vibrante para encontros e interações entre moradores e turistas. Chesterfield Café Club Restaurant Bar Paris
- Avenida Champs-Élysées: Uma das avenidas mais famosas e largas do mundo, tradicional ponto de concentração turística, comércio de luxo e vida noturna parisiense, o que valida perfeitamente o cenário do encontro multicultural da história. Avenue des Champs-Élysées
