Sabe quando você vê a escalação de um time de futebol e pensa: “Pronto, já ganhamos”? Era exatamente essa a minha sensação antes de assistir a “O Conselheiro do Crime” – The Counselor (2013). A premissa é até simples: um advogado respeitado, ambicioso e um tanto ingênuo, decide entrar de cabeça no mundo do tráfico de drogas para levantar uma grana rápida para financiar seu casamento. Como você pode imaginar, o plano dá tão certo quanto tentar fazer dieta comendo na casa da avó. O que era para ser um “negócio” pontual vira uma espiral de violência e paranoia que suga todos ao seu redor.
O problema, para mim, não começou na história, mas na expectativa. Olhe só o time que reuniram para este projeto. Na direção, temos ninguém menos que Ridley Scott, o cara por trás de clássicos como Alien, Blade Runner e Gladiador. O roteiro é do Cormac McCarthy, um gênio da literatura que escreveu Onde os Fracos Não Têm Vez. E o elenco? Ah, o elenco… Michael Fassbender – o famoso “tripé” (veja por si mesmo no filme Shame) como o tal advogado, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Jeffrey Dean Morgan, digo, Javier Bardem e até Brad Pitt em mais um papel maluco interpretando ele mesmo – Isso só no time principal! Também aparecem Natalie Dormer (a Rainha Lannister de Game of Thrones), nosso vilão latino genérico Johen Leguizamo, Dean “Hank” Norris e até Bruno Ganz, isso mesmo, o melhor Hitler EVER!
É o que eu chamo de “juntar os Vingadores” ou enfim começar a operação da “Liga da Justiça”. A gente espera uma explosão épica, algo que vai mudar nossa percepção de cinema.
Mas aí a gente senta na poltrona e as coisas começam a ficar… estranhas.
Primeiro, vamos falar do título no Brasil: “O Conselheiro do Crime”. Sério? Foi a primeira coisa que me incomodou. O personagem do Fassbender não é um conselheiro, ele é o cara que vive pedindo conselhos! Ele passa o filme inteiro ouvindo de Bardem e Pitt que “aí não é seu lugar”, “cuidado com o que você está fazendo”, “as consequências são brutais”. Ele é o aconselhado do crime, o estagiário que se meteu onde não devia. O título original, “The Counselor” (O Advogado), é muito mais direto e honesto com a proposta. Essa tradução brasileira já prepara o espectador para uma coisa que o filme não entrega.
E essa sensação de “não entregar” permeia a experiência toda. O filme é bom, tem ótimos diálogos, metáforas e citações inteligentes, mas não gostei do produto final. E digo isso com dor no coração, porque ele tem qualidades. Além do que citei, a fotografia é impecável, as atuações são viscerais (Javier Bardem e Cameron Diaz estão bizarramente hipnóticos), e os diálogos filosóficos do McCarthy são puro suco de literatura. Mas, no fim das contas, a sensação que fica é a de um potencial gigantesco sendo jogado no lixo.
É um desperdício de recursos, de talento, de tempo. É como ter uma Ferrari para andar na cidade no horário de pico. Você tem uma máquina poderosa nas mãos, mas não consegue passar da segunda marcha. O filme é frio, distante, e parece mais interessado em suas próprias reflexões sobre a ganância e a morte do que em contar uma história que nos conecte.
Mas aqui vem o paradoxo: apesar de tudo isso, o filme é divertido. Sim, divertido! As cenas do Javier Bardem com suas roupas espalhafatosas e sua visão de mundo peculiar, os monólogos absurdos, a vilania quase cartunesca da Cameron Diaz… São momentos tão fora da curva, tão estranhos, que você acaba se divertindo com o bizarro. É um entretenimento que nasce do desconforto, da sensação de estar vendo algo que não deveria ser tão sério e, ao mesmo tempo, tão ridículo.
No final, “O Conselheiro do Crime” é um belo fracasso. Uma obra cheia de estrelas, com um diretor genial e um roteirista premiado, mas que não consegue encontrar seu caminho. É um filme que eu não recomendo com entusiasmo, mas que, se você assistir, provavelmente vai gerar uma boa conversa depois. E talvez essa sempre tenha sido a intenção. 😉
Referências:
Imagem:
- 20th Century Fox / Scott Free Productions – Pôster oficial do filme O Conselheiro (The Counselor), dirigido por Ridley Scott.






