Antes de mais nada, quero deixar uma coisa bem clara logo de cara: eu não sou o vilão ressentido da história que quer jogar água fria na diversão de ninguém. Sou super a favor de curtir a febre do futebol, de enfeitar a casa e de vibrar com os jogos, mas a gente precisa ter uma conversa muito séria sobre o que se tornou o famoso álbum de figurinhas da Copa do Mundo.
Para vocês entenderem bem o meu ponto e o porquê dessa reflexão, vamos voltar um pouquinho no tempo, lá para o início dos anos 80. A primeira Copa do Mundo que eu tenho a real e clara consciência de estar vivo e acompanhando foi a de 1982, sediada na Espanha. Eu era muito criança na época, daquelas que mal alcançam a mesa da sala e vivem com os joelhos ralados, então minhas lembranças são como flashes soltos de um filme antigo rodando na cabeça.
Lembro nitidamente das ruas do bairro sendo pintadas pela vizinhança. Era um mutirão coletivo, com as calçadas ganhando aquele verde e amarelo vibrante, bandeirolas atravessando os postes e uma energia contagiante no ar. Lembro também do mascote simpático daquela edição, o carismático Laranjito, que estampava tudo quanto era produto. E, claro, impossível esquecer da música que grudou na mente e não saía das rádios: “Voa, Canarinho, Voa”, interpretada de forma marcante pelo Júnior, aquele mesmo, o ex-jogador e lendário lateral da nossa seleção.
Mas a memória mais forte, afetiva e palpável que tenho dessa época envolve cheiro de papel novo e cola. Eu não lembro com exatidão matemática se cheguei a completar o álbum de 1982 de ponta a ponta, mas a imagem da minha mãe me levando pela mão para o meio da rua, com o único propósito de trocar figurinhas repetidas com as outras crianças do bairro, é algo que me marca profundamente até os dias de hoje.
Nessa época, nós éramos uma família bem humilde, lutando com o orçamento apertado de todo mês. Para vocês terem uma dimensão da nossa realidade, a gente só pisava nessas lanchonetes famosas de fast-food de rede uma única vez por ano, e olhe lá. Era um evento planejado exclusivamente para comemorar algum aniversário, pois não tínhamos recursos para luxos corriqueiros. Faltava grana para muita coisa, mas o álbum da Copa… ah, esse a gente conseguia manter e aproveitar.
Era uma brincadeira incrivelmente barata e acessível. O ato de juntar umas moedas, comprar os pacotinhos na banca de jornal da esquina, rasgar a embalagem com ansiedade e depois ir bater bafo (ou bater figurinha) na calçada era a realidade de quase todo mundo. Era, na verdade, a nossa rede social analógica, onde as amizades se formavam na base da troca do craque do time rival pela figurinha dourada brilhante. 😉
Aí a gente faz um corte rápido na cena e pula para os dias de hoje. Parece que fomos transportados para uma realidade alternativa meio distópica, onde a coisa toda mudou de patamar de um jeito bastante assustador. O que antes era um hobby puramente divertido, democrático e que cabia no bolso, transformou-se lentamente em um artigo de luxo. A impressão que dá é que hoje em dia a coleção é um privilégio voltado quase que exclusivamente para crianças e famílias de classe média ou alta.
Vamos colocar a razão para funcionar e fazer as contas, porque, como dizem, a matemática não costuma mentir. O álbum atual bateu a impressionante marca de 960 figurinhas para ser finalizado. Cada cromo custa, em média, a bagatela de 1 real. Ou seja, se você for o ser humano mais sortudo da face da Terra, uma espécie de reencarnação de um mago das probabilidades, e não tirar absolutamente nenhuma figurinha repetida nos pacotinhos, você já vai desembolsar quase mil reais de cara.
Mas a gente sabe muito bem que a vida real não é um roteiro facilitado de um filme da Marvel e a sorte raramente funciona dessa maneira tão generosa. Na prática, o buraco é bem mais embaixo. Trocando o que vem repetido nas rodinhas de colecionadores e comprando pacotinhos avulsos com sabedoria, uma pessoa extremamente organizada pode acabar gastando entre 1000 e 1100 reais. Agora, para quem compra na pura empolgação, não tem paciência e não conta com uma rede enorme de trocas, o valor final para ver o álbum completo pode facilmente bater a surreal casa dos 5 mil reais.
Pensa bem com a cabeça fria: cinco mil reais! Isso é uma quantidade absurda de dinheiro para qualquer pessoa assalariada comum. É praticamente o preço de tentar colecionar as Joias do Infinito, só que, nesse caso, o Thanos que estala os dedos e apaga a nossa diversão chama-se inflação e ganância corporativa.
Eu até consigo entender que os tempos mudaram. A qualidade do papel de fato melhorou, a impressão é de ponta e os contratos de licenciamento internacional com os jogadores e seleções ficaram infinitamente mais caros. Mas, no fim do dia, o fato inescapável é que o produto está, sim, consideravelmente superfaturado para a realidade do nosso povo.
A essência mágica e agregadora da brincadeira acabou sendo sequestrada por um certo elitismo financeiro. E confesso que me bate uma tristeza genuína ao pensar que a molecada de hoje, que vive exatamente a mesma realidade humilde que eu vivia lá em 82 nas ruas, dificilmente vai ter a chance real de sentir a emoção de rasgar o pacotinho e colar a última figurinha no álbum sem que isso comprometa seriamente a renda do mês da própria família.
Referências:
- Globo Esporte: Relembre o Laranjito e a Copa de 1982
- InfoMoney: Quanto custa completar o álbum da Copa do Mundo?
Revista Placar / Veja: Documenta o impacto cultural da Seleção de 1982 e como a música “Voa, Canarinho, Voa”, gravada pelo lateral Júnior, se tornou o hino não oficial daquela geração e dominou as ruas.
Exame (Finanças Pessoais): Traz as estatísticas e a probabilidade matemática do colecionador, validando a tese de que a falta de uma rede de trocas (comprando apenas pacotes avulsos e tirando repetidas) pode elevar os gastos a valores exorbitantes próximos a R$ 5.000.
UOL Esporte (História das Copas): Uma retrospectiva detalhada do evento sediado na Espanha em 82, validando a febre do mascote Laranjito e a tradição imersiva de pintar as ruas pelo Brasil.






